Um novo movimento que defende a tolerância zero em relação ao consumo de álcool tem gerado descontentamento e sensação de impotência em diversas pessoas, independentemente dos seus hábitos de consumo. No entanto, profissionais da saúde e pesquisas recentes indicam que, para a maioria dos indivíduos, uma simples moderação na ingestão de bebidas alcoólicas pode resultar em benefícios significativos e duradouros.
Uma pesquisa publicada na revista JAMA Network Open revelou que, entre homens que consomem álcool em excesso (definido como mais de duas doses diárias), a redução desse consumo para níveis moderados — cerca de uma dose diária — está associada a uma diminuição de quase 10% no risco de desenvolvimento de cânceres relacionados ao álcool.
O cirurgião Ben-Hur Ferraz Neto, especialista em fígado e aparelho digestivo e diretor do Instituto do Fígado Americas, enfatiza que a saúde deve ser considerada um bem-estar abrangente, englobando não apenas aspectos biológicos, mas também sociais e culturais. Ele argumenta que, para indivíduos sem problemas de saúde, desfrutar de uma taça de vinho nos finais de semana é aceitável. Contudo, o ideal é evitar o consumo diário ou quantidades excessivas em uma única ocasião.
Ele também destaca a falta de um consenso oficial sobre o que constitui “consumo moderado”. As diretrizes mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) indicam que não existe um limite mínimo seguro para o consumo de álcool.
“Reduzir a ingestão já pode diminuir significativamente muitos riscos. É claro que gestantes ou pessoas com condições médicas agravadas pelo álcool devem evitar completamente sua ingestão. Mas para um indivíduo saudável, beber ocasionalmente é mais aceitável”, completa Ben-Hur.
Um estudo realizado no ano passado pelo pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz, sob solicitação das organizações Vital Strategies e ACT Promoção da Saúde, estimou que se os brasileiros diminuíssem seu consumo de álcool em 20%, conforme meta estabelecida pela OMS até 2030, seria possível evitar anualmente 10.400 mortes — o equivalente a um óbito evitado por hora no país.
Outro levantamento da Vital Strategies projetou que até 2050 poderiam ser prevenidas 157.400 mortes por câncer no Brasil caso a população reduzisse sua ingestão média diária em apenas uma dose. O impacto seria especialmente relevante nos casos de câncer colorretal, com 30.400 vidas salvas, e câncer esofágico, com 30.100 mortes evitadas.
A definição padrão para uma dose é 14g de álcool, correspondente aproximadamente a uma lata de cerveja (350 ml), uma taça de vinho (150 ml) ou 45 ml de destilados. A redução no consumo é eficaz porque os efeitos nocivos do álcool são dependentes da quantidade ingerida; quanto mais se bebe, maiores os riscos envolvidos.
Um estudo publicado na revista Journal of Studies on Alcohol and Drugs indicou que aqueles que consomem mais de sete doses por semana enfrentam um risco mínimo de morte prematura relacionado ao álcool em torno de 1 em cada 1.000 pessoas. Esse risco cresce significativamente para cerca de 1 em cada 100 quando o consumo ultrapassa as 8,5 doses semanais e chega a aproximadamente 1 em cada 25 entre aqueles que consomem 14 doses por semana.
Melhoras
Pesquisas apontam que alguns efeitos adversos à saúde cardiovascular, como hipertensão arterial, podem melhorar rapidamente após a redução do consumo alcoólico. Um estudo publicado na revista Addiction confirma que os danos cerebrais ocasionados pelo uso excessivo também podem apresentar recuperação parcial com a diminuição da ingestão.
A presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), Clarissa Baldotto, menciona um benefício adicional relacionado ao risco cancerígeno: embora o álcool seja frequentemente vinculado ao câncer hepático e esofágico, novas evidências sugerem conexões com outros tipos de tumores, como os cânceres mama e intestinal.
Gustavo Pereira, presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ), parte da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) no estado, explica que mesmo condições avançadas no fígado podem ser revertidas com a interrupção do consumo: “Pacientes com esteatose hepática começam a mostrar melhora após cerca de seis a oito semanas sem beber. Aqueles com cirrose podem impedir a progressão da doença se pararem totalmente com o álcool. Há casos raros onde pacientes aguardavam um transplante mas conseguiram reverter sua situação clínica.” Isso demonstra como a redução no consumo pode levar a melhorias significativas na saúde geral relacionada aos danos provocados pelo álcool.
