Eleições no Brasil e nos EUA: o mundo observa os discursos de Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira

No contexto das eleições no Brasil e nos Estados Unidos, além da crise do multilateralismo, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU receberá com atenção os discursos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, programados para esta terça-feira (22). Lula abrirá as falas, seguido por Trump, e ambos devem apresentar visões contrastantes sobre o cenário global.

Segundo Benjamin Gendan, pesquisador sênior e diretor do programa para a América Latina do Stimson Center, é curioso que a ONU tenha sido o palco onde Lula e Trump tiveram um breve momento de reconciliação no ano passado. “É irônico, pois é aqui que suas divergências se tornam mais evidentes”, ressalta.

O especialista menciona que os dois líderes se encontraram em 2025, quando cruzaram caminhos no corredor entre seus discursos. Na ocasião, Trump elogiou a “excelente química” que teve com Lula, mesmo em um ambiente tenso devido às tarifas comerciais elevadas.

Gendan observa que Lula sempre foi um forte defensor da colaboração internacional, enquanto Trump tende a ver a ONU como um desperdício financeiro. O pesquisador acredita que o atual calendário eleitoral não contribuirá para reduzir essa disparidade.

A proximidade das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para 4 de outubro, traz uma expectativa adicional ao evento. As pesquisas recentes apontam um empate entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Nos Estados Unidos, os cidadãos também se prepararão para votar em novembro, quando se espera que o partido de Trump perca o controle da Câmara e possivelmente do Senado.

Lucas de Souza Martins, professor de política americana e relações internacionais na Universidade Temple, considera que esta será uma oportunidade para ambos os presidentes abordarem indiretamente questões eleitorais em suas intervenções.

Bruna Santos, diretora do Brazil Program no Inter-American Dialogue, afirma que será “praticamente impossível” dissociar completamente o discurso de Lula na ONU de seu contexto político interno, mesmo que ele trate de temas internacionais.

Durante sua fala na ONU, espera-se que Lula reforce a importância da soberania nacional e da democracia, emitindo um alerta contra possíveis influências externas nas eleições brasileiras. No entanto, ele deve evitar citar diretamente qualquer autoridade ou país. “Embora Lula não mencione Trump especificamente, suas críticas ao unilateralismo e às sanções serão interpretadas como referências aos EUA”, explica Santos.

Assessores do governo brasileiro percebem tentativas de interferência americana favoráveis a Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras. Contudo, notam que Washington tem agido com cautela diante da intensa disputa eleitoral. Por exemplo, novos atos de sanção baseados na Lei Magnitsky poderiam ter impactos negativos para Flávio segundo esses assessores.

No entanto, o círculo próximo ao candidato brasileiro nos EUA tenta transmitir uma mensagem contrária. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro esteve em Washington recentemente buscando apoio durante reuniões no Departamento de Estado e na Casa Branca para reverter as sanções aplicadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Ele também solicitou a inclusão dos colegas Flávio Dino e Gilmar Mendes entre os alvos das sanções.

Diante desse cenário complexo, Lula se prepara para discursar pela décima vez como presidente na Assembleia Geral da ONU. O Brasil é responsável por abrir o debate desde 1955.

Os discursos ocorrerão em um contexto onde há uma percepção crescente entre interlocutores brasileiros sobre um retrocesso global nas áreas de paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos. A expectativa é que esse diagnóstico permeie as falas dos diferentes países presentes na assembleia; no entanto, as causas mencionadas e as soluções propostas provavelmente diferirão bastante.

No caso específico do Brasil e dos EUA, fontes brasileiras acreditam que as diferenças nas visões sobre a ordem internacional serão muito evidentes. “É inevitável que você tenha duas perspectivas distintas sobre a ordem mundial”, afirma um interlocutor do governo brasileiro. Santos acredita que Lula deverá enfatizar a defesa do multilateralismo e posicionar o Brasil como um ator responsável nas principais questões globais; por outro lado, Trump deve adotar uma postura mais nacionalista e transacional em seu pronunciamento.

Lula já antecipou sua intenção de abordar “o mundo” em seu discurso. Entre os tópicos mencionados por ele estão economia global, conflitos armados, representação no Conselho de Segurança e a suposta “falta de liderança” necessária para “tomar decisões”.

Trump poderá reiterar suas críticas habituais às organizações internacionais enquanto busca ressaltar seu legado como suposto “agente da paz”, conforme analisa Martins. “Não espero grandes novidades em relação ao ano passado”, conclui.

Apesar disso, existe a possibilidade de Trump mencionar seu envolvimento com governos latino-americanos – uma região frequentemente ignorada nos discursos recentes das administrações americanas –, especialmente no combate ao narcotráfico sem incluir o Brasil nessa cooperação. “Seria também uma maneira de ele se conectar com sua base”, observa Martins.

A questão do crime organizado ganhou relevância significativa na agenda internacional desde o ano passado; assim sendo, poderia justificar uma abordagem por parte do Brasil nesse sentido. No entanto, essa área também foi alvo de críticas por parte dos EUA recentemente e pode ser percebida como um terreno mais favorável a Flávio Bolsonaro e prejudicial à imagem de Lula.

“Lula pode sentir-se incentivado a usar seu discurso para enfatizar não apenas a soberania brasileira mas também expressar seu desconforto com a ‘Doutrina Monroe’, historicamente intervencionista dos EUA na América Latina”, afirma Gendan.

Caso ocorra um novo encontro informal entre Lula e Trump nos bastidores da assembleia, Gendan sugere que uma reaproximação pode ser viável apesar das tensões comerciais existentes entre os dois países.

A comunicação entre os dois governos permanece aberta na busca por soluções para superar as tarifas impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros; entretanto, assessores do Palácio do Planalto não esperam resultados imediatos nessa negociação. Eles avaliam que Washington deve evitar concessões que possam ser interpretadas como vitórias para Lula antes das eleições. As tarifas aplicadas são de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros.

By Canoas Informa

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