A FDA, a agência responsável pela regulamentação de medicamentos nos EUA, acaba de aprovar o primeiro tratamento para a atrofia muscular espinhal (AME), uma condição rara que resulta em perda de massa muscular. O apitegromabe, que é comercializado sob o nome Isembyld e desenvolvido pela farmacêutica americana Scholar Rock, atua diretamente nos músculos.
A AME é uma doença genética que afeta os neurônios motores na medula espinhal, responsáveis por conectar a medula ao músculo e transmitir comandos do cérebro para provocar contrações musculares. Sem esses sinais, os músculos se tornam fracos e podem atrofiar. A condição pode impactar a habilidade de se mover, engolir e até respirar. Em estágios mais avançados, pode levar à perda da capacidade de andar ou realizar movimentos independentes.
O apitegromabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia a ativação da miostatina, uma proteína considerada “ruim” pelo corpo, pois age como um inibidor natural do crescimento muscular. Clayton Macedo, endocrinologista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que essa proteína também acelera a degradação muscular. O novo medicamento atua na pró-miostatina, impedindo sua conversão em miostatina e funcionando como um freio na sua ativação.
Embora já existam outros tratamentos disponíveis para AME, eles focam no gene SMN2, que está relacionado aos neurônios motores, em vez de atuar diretamente nos músculos.
Ensaio clínico
A eficácia e segurança do Isembyld foram avaliadas em um estudo realizado ao longo de um ano com 188 pacientes diagnosticados com AME tipos 2 ou 3, com idades variando de 2 a 21 anos. Esses pacientes já não caminhavam e estavam sob algum tratamento direcionado ao gene SMN2. Os resultados desse estudo foram divulgados em agosto do ano passado na revista The Lancet Neurology e mostraram uma melhoria significativa na função motora.
O ensaio clínico duplo-cego de fase 3 foi conduzido pela Johns Hopkins Medicine em Baltimore e envolveu 48 hospitais. As crianças com até 12 anos (156 participantes) foram aleatoriamente divididas para receber apitegromabe nas doses de 20 mg/kg ou 10 mg/kg (administradas por infusão intravenosa) ou placebo a cada quatro semanas. Os jovens com idades entre 13 e 21 anos (32 no total) receberam igualmente apitegromabe na dose de 20 mg/kg ou placebo a cada quatro semanas.
Dos participantes, 128 receberam apitegromabe enquanto 60 receberam placebo. Os dados revelaram que aqueles entre 2 e 12 anos tratados com o medicamento apresentaram uma melhoria média de 1,8 vezes maior em comparação aos que receberam placebo. Para a dose de 20 mg/kg, a diferença média foi de 1,4 ponto em relação ao placebo.
Os efeitos adversos observados foram semelhantes entre os grupos e compatíveis tanto com a atrofia muscular espinhal quanto com o tratamento padrão associado à doença. Entre os efeitos adversos relatados estava um aumento no risco de fraturas nos pacientes tratados com o medicamento. Além disso, o uso do Isembyld pode implicar riscos para o feto e afetar a função reprodutiva.
O custo do novo medicamento é elevado; um paciente típico pesando entre 35 kg e 45 kg que necessitar três frascos a cada quatro semanas terá um gasto anual estimado em US$ 310 mil (aproximadamente R$ 1,6 milhão). Uma única dose tem o preço sugerido de US$ 11.659 (cerca de R$ 60 mil).
Canetas
Com a recente aprovação, a Scholar Rock iniciou investigações sobre o uso do apitegromabe para preservar a massa muscular perdida durante emagrecimentos induzidos por canetas emagrecedoras.
A empresa deu início a um teste clínico que combina Isembyld com tirzepatida (Mounjaro) em indivíduos obesos. Os resultados dessa pesquisa foram publicados em junho na revista Nature Medicine.
Um estudo randomizado e duplo-cego de fase 2 foi conduzido pelo AdventHealth Translational Research Institute na Flórida envolvendo 102 adultos com sobrepeso ou obesidade. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre dois grupos: um recebeu tirzepatida junto ao apitegromabe e o outro tirzepatida combinada ao placebo durante um período de 24 semanas.
Aqueles que receberam apitegromabe apresentaram perda média de apenas 1,9 kg menos da massa magra quando comparados ao grupo placebo, resultando numa preservação dos músculos superior em até 54,9%. A taxa de efeitos adversos registrados entre os dois grupos foi semelhante: observou-se uma incidência de 76% entre os tratados com apitegromabe contra 71% no grupo placebo.
Macedo comenta que embora tenha havido uma leve melhora na preservação da massa muscular, essa ainda é parcial. O objetivo principal do medicamento é reduzir as perdas musculares; no entanto, essas continuam ocorrendo com o uso das canetas emagrecedoras. Além disso, vale ressaltar que o remédio não promove ganho muscular significativo.
