A solidão pode afetar até os mais sociáveis, segundo especialistas em psicologia

A solidão não necessariamente está ligada ao isolamento físico. Especialistas esclarecem que relações superficiais podem intensificar a sensação de desconexão, mesmo quando uma pessoa está rodeada por outras.

O sociólogo americano Eric Klinenberg, da Universidade de Nova York, expressa um paradoxo prevalente: “Nada é mais solitário do que estar em um relacionamento ruim.” Essa afirmação reflete a realidade de muitos, onde a solidão pode se manifestar mesmo em meio a interações e compromissos sociais frequentes.

A psicóloga Denise Orellano observa que “somos hiperconectados, mas frequentemente emocionalmente distantes”. Ela ressalta que, apesar de compartilharmos informações e memes, raramente discutimos nossas vulnerabilidades ou vivências mais profundas.

Nesse cenário, surge o conceito de solidão funcional. Isso não implica ausência de relacionamentos, mas sim a presença de vínculos que servem a propósitos práticos como trabalho ou atividades recreativas, sem promover uma conexão emocional significativa.

A psicóloga espanhola Silvia Álava Sordo explica que existem pessoas com uma agenda social repleta de atividades, mas cujas relações são predominantemente instrumentais. “Uma pessoa é contatada para praticar esportes; outra para trabalhar; e ainda outra para organizar algum evento. Contudo, muitas vezes falta alguém com quem discutir questões mais relevantes,” afirma.

Os especialistas destacam uma distinção crucial entre presença social e apoio emocional. É possível ter muitos contatos e ainda assim não contar com alguém em quem se possa confiar plenamente.

“Os laços próximos são fundamentais para a felicidade ao longo da vida,” conclui a psicóloga Lucía Argibay. Ela acrescenta que “vínculos protetores oferecem um elemento central: permitem à pessoa sentir-se compreendida sem precisar ocultar sua essência.”

A solidão funcional pode gerar uma sensação de invisibilidade emocional: estar cercado por pessoas e sentir que ninguém realmente conhece seu interior.

Roxana M., 38 anos, compartilha sua experiência: “Eu tinha grupos para tudo: academia, trabalho, faculdade e corrida. Sempre conversava com alguém. Mas um dia me dei conta de algo desconfortável: se algo sério acontecesse comigo, eu não saberia a quem recorrer. Havia pessoas ao meu redor, mas não havia espaço para expressar o que eu sentia.”

Outro relato semelhante destaca a mesma realidade: “Eu conversava horas com diversas pessoas e voltava para casa com o sentimento de que ninguém sabia o que realmente estava acontecendo comigo.”

De acordo com os especialistas, relações emocionalmente significativas demandam tempo, reciprocidade e vulnerabilidade.

“Os laços que realmente protegem a saúde mental são formados ao longo do tempo e através de diálogos profundos,” enfatiza Álava Sordo.

As redes sociais também desempenham um papel nesse paradoxo. Elas ampliam o número de contatos disponíveis, mas nem sempre aprofundam as conexões interpessoais. Além disso, a comparação constante com versões idealizadas da vida alheia pode intensificar sentimentos de inadequação.

Orellano alerta que “as redes sociais apresentam realidades distorcidas. Ao se compararem com essas imagens idealizadas, algumas pessoas sentem suas vidas menos interessantes ou bem-sucedidas.”

Dicas para evitar esse problema

A recomendação principal é priorizar a profundidade em vez da quantidade nas relações sociais. Isso envolve investir em alguns vínculos capazes de oferecer escuta ativa, confiança e apoio mútuo.

“É essencial criar espaço para diálogos mais sinceros nos relacionamentos existentes. Quando alguém compartilha uma dificuldade ou emoção, isso convida o outro a fazer o mesmo,” sugere Orellano.

Os profissionais também aconselham dar prioridade aos encontros presenciais, minimizar as distrações causadas pelos celulares e dedicar tempo para conversas sem pressa.

Argibay destaca: “Na interação cara a cara surgem nuances ausentes nas mensagens escritas: gestos, silêncios e olhares. Esses elementos ajudam na compreensão mútua e fortalecem a empatia.”

A abertura para demonstrar vulnerabilidade é igualmente importante. Orellano explica: “Compartilhar dificuldades pessoais permite que os outros se aproximem de maneira mais genuína.”

No final das contas, a qualidade das interações sociais não depende da quantidade de pessoas ao redor, mas sim da existência de vínculos onde seja possível ser ouvido, compreendido e aceito.

Klinenberg conclui: “Aqueles que aprendem a se sentir bem consigo mesmos tendem a buscar companhia por desejo genuíno e não por carência.”

By Canoas Informa

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