O aumento da incidência de câncer colorretal no Brasil é uma questão alarmante. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), divulgados em fevereiro na Revista Brasileira de Cancerologia, a previsão é que entre 2026 e 2028, cerca de 53.810 novos casos sejam diagnosticados anualmente. Isso representa aproximadamente 10,4% de todos os novos casos de câncer no país.
Esse crescimento não se limita ao número de diagnósticos, mas resulta também em um incremento no número de internações e mortes. Um estudo publicado em março no ANZ Journal of Surgery, conduzido por pesquisadores do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS) do Hospital Israelita Albert Einstein, analisou dados sobre internações em hospitais públicos paulistas entre 2000 e 2023. Os pesquisadores observaram que a probabilidade de óbito após cirurgias para remoção de tumores no cólon e reto aumenta com a idade dos pacientes.
Outro ponto relevante encontrado na pesquisa foi a disparidade entre os tipos de cirurgia. Aqueles que se submetem a procedimentos emergenciais têm um risco consideravelmente maior de morte em comparação aos que realizam cirurgias eletivas. Essa evidência sugere que diagnósticos tardios e intervenções feitas em situações críticas estão associados a piores resultados clínicos. Além disso, o tempo de internação e a presença de doenças concomitantes agravam o risco de mortalidade; pacientes internados por períodos prolongados ou com múltiplas comorbidades enfrentam uma maior chance de complicações fatais.
“Com base nas descobertas, desenvolvemos modelos preditivos utilizando inteligência artificial, considerando dados clínicos e variáveis socioeconômicas como IDH do município, escolaridade e idade”, afirma Felipe Delpino, cientista de dados e coautor do estudo. A expectativa da equipe é que essas ferramentas futuramente ajudem hospitais na alocação eficiente de recursos, ampliando o acesso ao diagnóstico e tratamento em áreas carentes e reduzindo desigualdades sociais.
A tendência crescente nos casos de câncer colorretal não se limita ao Brasil; globalmente, cerca de 1,9 milhão de casos foram registrados em 2022, conforme um estudo publicado em fevereiro na revista Nature Medicine pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Embora as causas desse fenômeno não sejam completamente compreendidas, parece haver uma relação mais forte com fatores comportamentais do que genéticos”, comenta o coloproctologista Sergio Eduardo Araujo, diretor médico da Rede Cirúrgica do Einstein. “A falta de atividade física e uma dieta rica em alimentos ultraprocessados, alta em gorduras animais e baixa em fibras estão diretamente ligadas ao aumento da incidência desta doença.” O uso do tabaco e o consumo excessivo de álcool também são considerados fatores que elevam os riscos associados a esse tipo de câncer.
O câncer colorretal é caracterizado pelo crescimento descontrolado das células no cólon — a parte principal do intestino grosso — e no reto, que conecta o intestino grosso ao ânus. Sintomas comuns incluem sangramento retal persistente, mudanças nos hábitos intestinais, sensação constante de evacuação incompleta, perda inexplicável de peso e dor abdominal resistente a analgésicos comuns. “Sintomas duradouros por mais de uma semana devem ser avaliados por um médico”, aconselha Araujo.
A colonoscopia com biópsia é o método mais utilizado para diagnóstico dessa condição. Esse exame permite visualizar o interior do intestino grosso e identificar possíveis lesões ou tumores para coleta posterior para análise laboratorial. O exame anatomopatológico resulta na confirmação da natureza dos tecidos coletados e ajuda a determinar o estadiamento do tumor — isto é, seu grau de infiltração nas paredes intestinais.
No caso dos tumores localizados no cólon, o tratamento geralmente envolve cirurgia. “Em raras situações onde os tumores são detectados muito precocemente, pode-se optar pela remoção endoscópica durante a colonoscopia”, destaca Sergio Araujo.
Após a análise anatomopatológica, alguns pacientes podem necessitar fazer quimioterapia adjuvante para eliminar células tumorais remanescentes e prevenir metástases. Quando os tumores apresentam características biológicas específicas, recomenda-se imunoterapia — um tratamento inovador que visa ativar o sistema imunológico do paciente contra as células cancerígenas. “Os resultados têm sido positivos entre nossos pacientes”, observa Araujo.
No caso específico dos tumores retais, o tratamento inicial geralmente inclui quimioterapia combinada com radioterapia antes da cirurgia final. “Após esse tratamento inicial, muitos pacientes ainda precisarão ser operados; no entanto, cerca de 20% a 30% podem ter uma resposta completa ao tratamento inicial e evitar a cirurgia”, ressalta o coloproctologista.
Quando há metástases presentes, a abordagem tende a ser sistêmica com foco na quimioterapia. O uso da robótica tem se mostrado promissor nas operações cirúrgicas devido à sua precisão melhorada e ao rápido período pós-operatório. Isso permite que os pacientes iniciem seu tratamento oncológico mais cedo e aumentem suas chances de cura.
Estudos indicam que hábitos saudáveis podem influenciar positivamente na prevenção do câncer intestinal. Manter uma rotina com exercícios físicos regulares aliada a uma alimentação balanceada rica em fibras é fundamental para promover uma boa saúde intestinal.
A detecção precoce também é crucial na luta contra o câncer colorretal. Diagnósticos realizados em estágios iniciais tornam os tratamentos mais eficazes e aumentam as chances curativas. “O câncer colorretal costuma surgir principalmente após os 45 ou 50 anos; portanto, estratégias preventivas são recomendadas para essa faixa etária”, orienta Araujo.
Dentre as principais estratégias preventivas estão: realização anual do teste para sangue oculto nas fezes e colonoscopias periódicas a cada dez anos. Para indivíduos sem histórico familiar da doença, essas recomendações começam aos 45 anos.
Caso haja histórico familiar direto do câncer colorretal em parentes próximos, aconselha-se iniciar os exames aproximadamente dez anos antes da idade em que ocorreu o diagnóstico familiar. Por exemplo: se um pai teve câncer diagnosticado aos 50 anos, os filhos devem começar seus rastreamentos aos 40 anos. Com essas abordagens combinadas espera-se reduzir significativamente a incidência da doença e melhorar as perspectivas terapêuticas na maioria dos casos.(Arthur Almeida/Agência Einstein)
