A soroterapia voltou a ser tema de debate nas redes sociais, especialmente após a influenciadora Virginia Fonseca e o jogador Vinícius Júnior a utilizarem enquanto estavam nos Estados Unidos. No entanto, médicos alertam que os tratamentos promovidos como milagrosos por clínicas e celebridades podem ser enganosos e apresentar riscos à saúde.
Esse método consiste na infusão intravenosa de vitaminas, minerais e suplementos diretamente na corrente sanguínea. No Brasil, é frequentemente chamado de “soro da beleza” ou “soro da imunidade”, sendo promovido com diversas promessas, como melhora na qualidade do sono, aumento da energia e redução do estresse. Apesar do crescente interesse impulsionado por influenciadores digitais, especialistas questionam os benefícios reais desse procedimento.
A médica nutróloga Marcella Garcez Duarte, que ocupa o cargo de diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), destaca uma diferença significativa entre as práticas realizadas nos Estados Unidos e aquelas que se tornaram populares no Brasil. Ela explica: “Em solo americano, existem estabelecimentos que oferecem infusões com quantidades mínimas de nutrientes. No Brasil, esses locais não só são desaconselhados como também são proibidos.”
No território brasileiro, a aplicação intravenosa de nutrientes é legal apenas em situações específicas — como após cirurgias em pacientes que enfrentam dificuldades na absorção dos mesmos — e deve ocorrer exclusivamente em ambientes hospitalares. As clínicas que disponibilizam o “soro da beleza” para fins estéticos operam na ilegalidade. Essa distinção é fundamental para diferenciar a soroterapia estética da suplementação injetável, que é permitida somente em condições médicas bem definidas.
Conforme a Sociedade Brasileira de Dermatologia, não há evidências científicas robustas que garantam a segurança e eficácia da soroterapia. A reposição de vitaminas é recomendada apenas em casos de deficiência confirmada, quando o tratamento oral não apresenta resultados satisfatórios.
Composição
Embora não exista uma fórmula fixa para os coquetéis utilizados nas aplicações, muitas clínicas fazem uso comum de combinações que incluem vitamina C, vitaminas do complexo B, magnésio, zinco, aminoácidos e glutationa diluídos em soro fisiológico ou glicosado.
A composição pode variar amplamente entre diferentes estabelecimentos. O cirurgião especializado em aparelho digestivo Rodrigo Barbosa ressalta que essa falta de padronização é um dos principais fatores de preocupação. Ele afirma: “Não há uma fórmula única, o que já levanta questões. Um protocolo sério deve se basear em exames que identifiquem deficiências reais e não em um cardápio onde o cliente escolhe conforme suas queixas.” Para ele, mudanças na fórmula baseadas no marketing ao invés das necessidades do paciente configuram uma prática inadequada.
Riscos
Embora a soroterapia possa parecer um procedimento simples, especialistas alertam sobre os riscos associados a qualquer tipo de acesso venoso. Esses riscos incluem dor, hematomas, flebite, infecções locais, extravasamento da solução administrada e reações alérgicas. Além disso, podem ocorrer alterações na pressão arterial e distúrbios eletrolíticos, bem como complicações mais graves como lesões renais ou arritmias cardíacas — especialmente em indivíduos com problemas cardíacos ou renais.
Um aspecto frequentemente ignorado é que o excesso de vitaminas pode ser prejudicial à saúde. Há também o risco significativo de interações entre os componentes administrados ou com medicamentos contínuos que o paciente esteja utilizando. Isso pode resultar em efeitos adversos como náuseas, tonturas, dores de cabeça e variações na pressão arterial.
