Controlar os níveis do colesterol LDL, frequentemente chamado de “colesterol ruim”, aparenta ser uma tarefa simples em teoria: realizar exames, implementar modificações no estilo de vida, utilizar medicamentos, ajustar as doses e repetir o processo até alcançar os níveis desejados. Contudo, na prática, essa abordagem nem sempre funciona como esperado. Muitos pacientes com alto risco cardiovascular continuam apresentando taxas elevadas, mesmo com o uso de estatinas e outros fármacos. Além disso, há aqueles que optam por reduzir ou interromper o tratamento devido a dores musculares, um efeito colateral comum e indesejado.
Diante desse desafio, um novo estudo surgiu para analisar uma terapia chamada inclisirana, que já possui aprovação das agências reguladoras competentes. Este medicamento é baseado em RNA e é administrado por via subcutânea a cada seis meses. Ele atua reduzindo a produção de uma proteína crucial no controle do colesterol LDL circulante.
A pesquisa foi recentemente publicada no European Heart Journal e teve como principal instituição parceira o Deutsches Herzzentrum der Charité, localizado em Berlim, Alemanha.
O estudo envolveu 1.770 adultos com níveis elevados de colesterol e classificados como de alto ou muito alto risco cardiovascular. Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu inclisirana juntamente com medicamentos tradicionais para redução do colesterol otimizados; enquanto o outro grupo recebeu placebo (injeções sem princípio ativo) além da mesma otimização de tratamento, que incluía doses de rosuvastatina e outras medicações como ácido bempedoico e ezetimiba quando necessário.
Os resultados foram impressionantes: em apenas 90 dias, 84,9% dos pacientes que receberam inclisirana alcançaram suas metas individuais de LDL, em comparação a apenas 31% do grupo que recebeu o tratamento otimizado sem o novo medicamento. Isso demonstra que a abordagem com inclisirana significativamente aumentou as chances de atingir os objetivos terapêuticos entre uma população que historicamente enfrenta dificuldades nesse controle.
O colesterol LDL é chamado de “ruim” porque está diretamente envolvido na formação de placas de gordura nas artérias, o que pode resultar em infarto, AVC e outras complicações cardiovasculares graves. Portanto, quanto maior o risco do paciente, mais rigorosa é a meta recomendada pelas diretrizes médicas. O verdadeiro desafio reside em transformar essa meta em realidade e mantê-la ao longo do tempo.
No que diz respeito à duração do tratamento, o VICTORION-Difference forneceu outra informação relevante: após um ano, a redução média do LDL foi de 59,5% no grupo que recebeu inclisirana, enquanto no grupo tratado apenas com terapia otimizada essa redução foi de 24,3%. A diminuição dos níveis começou rapidamente e se manteve durante todo o acompanhamento clínico, sugerindo um efeito duradouro.
A inclisirana opera através de um mecanismo distinto das estatinas. Enquanto as estatinas atuam diminuindo a produção de colesterol pelo fígado, a inclisirana utiliza uma tecnologia conhecida como RNA interferente pequeno (siRNA) para “silenciar” uma mensagem genética ligada à produção da proteína PCSK9. Com menos PCSK9 disponível no organismo, há uma capacidade maior para remover LDL da corrente sanguínea.
Após as doses iniciais do tratamento com inclisirana, as aplicações subsequentes são realizadas semestralmente, facilitando a adesão dos pacientes que encontram dificuldades com a administração diária de medicamentos.
Outro aspecto importante abordado pelo estudo foi a avaliação não apenas dos dados laboratoriais mas também da tolerância ao tratamento. Os eventos adversos relataram menos frequência entre os pacientes que utilizaram inclisirana: 11,9% contra 19,2% no grupo que seguiu somente com terapia otimizada. Além disso, foram observados sinais positivos relacionados à dor e sua interferência nas atividades diárias dos participantes, embora alguns resultados tenham sido moderados.
A relevância dessa questão não pode ser subestimada. A dor muscular pode impactar negativamente aspectos como trabalho e sono e até mesmo desencorajar a prática regular de exercícios físicos. Até mesmo desconfortos menores podem levar os pacientes a abandonar ou usar irregularmente as estatinas; assim sendo, quando o tratamento se torna inconsistente, há um aumento considerável no risco cardiovascular.
Em síntese, os achados deste estudo defendem uma nova abordagem na cardiologia preventiva: tratar níveis elevados de colesterol em pacientes considerados de alto risco pode demandar ações mais rápidas ao invés de longas esperas. Para aqueles que já enfrentaram infartos ou AVCs ou possuem múltiplos fatores de risco cardiovascular, permanecer acima das metas estabelecidas por meses ou até anos significa expor-se continuamente a um perigo silencioso.
É importante ressaltar que isso não implica na eliminação das estatinas do tratamento; elas permanecem fundamentais devido à sua segurança e eficácia comprovada. Contudo, para certos pacientes, combinar métodos tradicionais com novas estratégias pode oferecer melhores resultados na proteção cardiovascular.
