Álbuns de figurinhas da Copa promovem reencontro social entre jovens e suas famílias

Estão em todos os lugares: escolas, shoppings, condomínios e até em áreas públicas, sejam elas fechadas ou ao ar livre. O fenômeno do álbum de figurinhas da Copa do Mundo tem atraído crianças, adolescentes e até adultos, promovendo um aspecto surpreendente: a revalorização da socialização.

Nos últimos anos, com o aumento do uso de aplicativos de mensagens e redes sociais, muitos jovens experimentaram uma diminuição no contato pessoal. Apesar das críticas relacionadas aos altos custos e ao consumismo que envolvem as figurinhas, esse fenômeno está ajudando na reintegração social.

Durante as trocas de figurinhas, as crianças não apenas interagem, mas também aprendem a esperar (pela figurinha que almejam), a lidar com a frustração (quando não obtêm o que desejam) e a negociar (já que nem sempre uma figurinha é equivalente a outra).

“Em uma era marcada pela imediatismo, onde tudo está disponível instantaneamente nas mãos deles, a expectativa criada ao abrir um novo pacote e o elemento surpresa são fundamentais para o desenvolvimento emocional dessas crianças. Esses encontros são reais e proporcionam conversas, negociações e um senso de comunidade que vão além do virtual. O valor da interação social supera qualquer outro aspecto”, comenta Renata Bento, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

A psicóloga Carolina Nassau Ribeiro, doutora em psicanálise, enfatiza que a socialização é essencial para moldar nossa identidade, entender nossos limites, regular emoções e aprender a resolver conflitos.

“Soube sobre um menino que estava empenhado em trocar suas figurinhas repetidas por uma rara. Nessa experiência, ele enfrenta a frustração de não conseguir a figurinha desejada enquanto elabora estratégias para solucionar seu problema. Ele persiste na comunicação com os outros em vez de desistir ou bloquear alguém como acontece nas redes sociais. Essa vivência funciona como um anticorpo para desafios futuros na vida adulta”, acrescenta.

Socialização

A pandemia transformou experiências coletivas como essas em potenciais riscos à saúde. As pessoas se habituaram à solidão dentro de casa e isso acarretou um preço elevado para crianças e adolescentes que perderam o convívio social com seus pares.

Como resultado disso, houve um crescimento nos casos de isolamento social, depressão e ansiedade, além do aumento do tempo gasto em telas. Especialistas concordam que até mesmo aqueles que apreciam estar em companhia dos outros apresentaram uma queda na socialização.

“Estamos atravessando um dos períodos mais desafiadores para a socialização na história recente. Muitas vezes ouço em meu consultório que esse aspecto é considerado dispensável. Não é mais natural que crianças e adolescentes se relacionem entre si, frequentemente devido à falta de estímulo por parte dos próprios pais”, observa Priscila Martins, psicóloga.

Ela aponta que os pais estão se tornando menos sociáveis e acreditam ser seguro manter seus filhos dentro de casa. Mesmo quando estão com dispositivos eletrônicos nas mãos, eles permanecem “protegidos” no ambiente familiar.

Segundo Martins, essa ausência de interação social pode ser “viciante e gratificante”, pois evita riscos e problemas associados à convivência interpessoal.

“Entretanto, precisamos das trocas sociais. Especialmente entre crianças e adolescentes, onde essas interações são distintas e promovem aprendizado através da brincadeira. Em simples diálogos eles experimentam emoções como alegria e tristeza, aprendendo a lidar com dificuldades. Essa mudança precisa vir dos adultos; enquanto os pais não alterarem sua visão sobre socialização, nada irá mudar ou melhorar”, conclui Martins.

Falta desejo

Por isso mesmo, essa onda do álbum de figurinhas assume um papel crucial para um recomeço nas relações sociais. É vital incentivar encontros presenciais entre adultos e crianças. Para especialistas, os pais devem motivar esses momentos de troca: levando os filhos a locais específicos nos shoppings ou condomínios para negociar figurinhas; organizando trocas em casa; permitindo que as crianças convidem amigos para abrir pacotes juntas; ou incentivando-as a sair de casa ao invés de ficarem conectadas às telas. E o mais importante: permitir que elas encontrem suas próprias soluções para os problemas relacionados ao álbum — seja perguntando qual será o plano delas para completar a coleção ou como pretendem obter as figurinhas faltantes através das negociações.

By Canoas Informa

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