Falha no sistema facilita acesso à testosterona para mulheres na menopausa

A terapia hormonal durante a menopausa foi cercada de controvérsias por mais de 20 anos, especialmente após a divulgação, em 2002, do estudo Women’s Health Initiative (WHI), que apontou um aumento nos riscos de problemas cardíacos e câncer de mama associados à reposição hormonal. No entanto, novas análises e pesquisas subsequentes demonstraram que os resultados podem variar conforme a idade das pacientes, o momento em que o tratamento é iniciado, os tipos de hormônios utilizados, as dosagens e as rotas de administração. Esse entendimento levou a FDA (Food and Drug Administration), equivalente à Anvisa no Brasil, a reavaliar sua advertência rigorosa sobre certos medicamentos, flexibilizando os avisos de risco para algumas formulações.

Entretanto, essa nova posição tem sido utilizada por alguns profissionais como justificativa para ampliar a prescrição de testosterona entre mulheres. Este hormônio não faz parte do protocolo padrão e pode acarretar sérios riscos à saúde.

Clayton Macedo, endocrinologista e coordenador do ambulatório de endocrinologia do exercício na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é um dos criadores da campanha “Bomba tô fora” e considera essa postura uma distorção arriscada. “A testosterona está sendo indevidamente associada a essa discussão. A revisão da FDA se concentrou no uso de estrogênio e progesterona. Utilizar isso como justificativa para aumentar as prescrições de testosterona é uma má interpretação das informações e coloca as mulheres em situação vulnerável”, adverte Macedo, que também ocupa um cargo na Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

Os riscos associados ao uso da testosterona não devem ser ignorados: esse hormônio pode provocar efeitos adversos significativos, incluindo modificações nos níveis de colesterol, hipertensão arterial, arritmias cardíacas, infartos, embolias, além de sintomas como crescimento excessivo de pelos, queda capilar, mudança na voz, aumento do clitóris, resistência à insulina e possíveis lesões hepáticas em doses elevadas.

Aspectos da terapia hormonal na menopausa

De acordo com especialistas consultados, o foco principal da terapia hormonal durante a menopausa é a reposição do estrogênio. Este hormônio diminui significativamente nessa fase da vida da mulher e está relacionado aos sintomas típicos da menopausa: ondas de calor (fogachos), insônia, variações emocionais e perda óssea. A progesterona também pode ser recomendada para proteger o endométrio em mulheres que possuem útero. “Esse tratamento possui ampla evidência científica. A indicação deve ser feita individualmente, considerando fatores como a idade da paciente, o tempo desde o início da menopausa e uma análise cuidadosa dos riscos e benefícios envolvidos”, comenta Alessandra Bedin Pochini, ginecologista e nutróloga do Einstein Hospital Israelita.

A testosterona pode ser considerada para terapia hormonal em casos bastante específicos; sua única indicação reconhecida é para mulheres que apresentam desejo sexual hipoativo — uma condição onde há uma perda significativa do interesse pela atividade sexual ao longo do tempo causando incômodo ou insatisfação.

Mesmo assim, ela deve ser indicada somente após investigar outras causas possíveis para a diminuição da libido, tais como depressão, obesidade ou problemas relacionais.

“É crucial distinguir entre diferentes situações. Existem mulheres na menopausa que têm pouca ou nenhuma atividade sexual mas estão satisfeitas com isso; nesses casos não há necessidade de intervenção médica. A testosterona deve ser considerada somente quando a falta de desejo é persistente e afeta realmente a qualidade de vida”, declara Lucia Helena Simões da Costa Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

A especialista ainda ressalta: “A testosterona não faz parte do tratamento normal para menopausa. Sua utilização deve ser restrita ao transtorno do desejo sexual hipoativo após um diagnóstico apropriado e geralmente em mulheres já sob terapia com estrogênio.”

Crescimento no uso da testosterona

Apesar das advertências sobre seu uso impróprio, alguns profissionais têm promovido a testosterona com promessas como aumento da energia, perda de peso, elevação da libido e ganho muscular — todas alegações sem comprovação científica robusta ou respaldo nas diretrizes internacionais pertinentes.

Um alerta deve ser acionado caso um profissional solicite exames para medir os níveis desse hormônio em mulheres. Em dezembro de 2025, tanto a Sbem quanto a Febrasgo e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) publicaram uma nota conjunta enfatizando que não há justificativa para realizar essa dosagem. As instituições também alertaram sobre os perigos do uso inadequado dessa substância.

“O emprego da testosterona entre mulheres carece de autorização específica formal e frequentemente ocorre fora das indicações estabelecidas na bula. A recente revisão pela FDA sobre estrogênio não muda esse panorama; ela não amplia as indicações para testosterona nem altera o fato de que seu uso deve ser excepcionalmente criterioso”, afirma Bedin.

Os especialistas enfatizam que o mais relevante neste debate não é apenas a revisão das terapias hormonais na menopausa em si mesma; mas sim como essa informação está sendo interpretada. “A banalização das indicações é uma questão ética preocupante. A testosterona deve ser vista como uma terapia excepcional. O que estamos observando é sua transformação em um recurso justificado por questões estéticas ou performance física — algo que nos distancia da medicina baseada em evidências”, conclui Macedo.

Os médicos reforçam que somente devem recorrer à terapia hormonal na menopausa quando realmente necessário; empregando estrogênio nas doses adequadas e pela via correta (oral, transdérmica ou vaginal) conforme o perfil individual da paciente — resultando assim em melhorias significativas na qualidade de vida. “Promessas acerca de energia elevada ou rejuvenescimento são infundadas”, finaliza Macedo.

By Canoas Informa

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