A surpreendente interação entre corpo e mente, segundo especialista em neurocirurgia

O nervo vago é considerado o mais longo do organismo humano. Apesar de seu nome, trata-se de um par de nervos que se encontram em ambos os lados do corpo, funcionando como uma via de comunicação bidirecional entre o cérebro e diversos órgãos, como coração, pulmões e estruturas abdominais, além de componentes como a laringe e o esôfago. Esse nervo desempenha um papel crucial no controle de processos involuntários, incluindo a respiração, a frequência cardíaca, a digestão e as reações imunológicas.

Entretanto, suas funções vão muito além do que se imagina. O neurocirurgião Kevin J. Tracey, também conhecido por seu trabalho de pesquisa, revelou que existe uma conexão significativa entre o cérebro e o sistema imunológico mediada pelo nervo vago. Essa descoberta abriu um vasto campo para investigações e novas terapias, sugerindo que a ativação desse nervo pode ser benéfica no tratamento de doenças inflamatórias, como artrite reumatoide, câncer, patologias cardiovasculares, diabetes, obesidade e condições neurodegenerativas, incluindo Alzheimer e Parkinson.

Nos últimos tempos, as redes sociais têm sido inundadas com sugestões sobre como estimular o nervo vago para promover benefícios à saúde como prevenção de doenças e melhora do bem-estar mental. Em meio a esse aumento de informações — muitas vezes confusas ou incorretas — Tracey decidiu escrever um livro que aborda esse nervo fundamental para o corpo humano. Intitulado “O nervo vago: as descobertas sobre o nervo que regula sistemas vitais do nosso corpo e pode curar doenças crônicas e autoimunes”, a obra foi recentemente publicada pela editora Sextante.

Em uma entrevista ao jornal O Globo, Tracey, uma autoridade global nas áreas de inflamação e medicina bioeletrônica e presidente do Instituto Feinstein nos Estados Unidos, discute a relevância do nervo vago para nossa saúde e compartilha formas simples de ativá-lo por meio de hábitos cotidianos.

– Por que você optou por escrever um livro sobre o nervo vago? Decidi escrever este livro porque há bilhões de informações disponíveis online sobre o nervo vago e considero muitas delas extremamente confusas; algumas são erradas enquanto outras são interessantes mas não têm comprovação. Meu objetivo foi compilar esses dados para que as pessoas possam discernir entre o que sabemos com certeza, o que é incorreto e aquilo que merece mais investigação.

– Qual é a importância do nervo vago para nossa saúde? Ele serve como um canal essencial de informação; é através dele que o corpo transmite ao cérebro suas condições e vice-versa. Os sinais enviados pelo nervo vago — somando 200 mil fibras entre os dois lados do pescoço — foram refinados ao longo da evolução para cumprir funções específicas com propósitos determinados. A harmonia resultante dessas funções é comparável a uma bela sinfonia musical chamada homeostase, onde todos os órgãos funcionam em equilíbrio. Embora médicos e cientistas estudem esse nervo há mais de dois mil anos, apenas recentemente começamos a mapear suas fibras com precisão usando ferramentas modernas. Esses novos mapeamentos revelaram que essas fibras não só controlam órgãos conhecidos como também influenciam a inflamação, abrindo novas possibilidades para pesquisas.

– No seu livro, você menciona que há uma proximidade entre o nervo vago e o sistema imunológico. O que muda quando consideramos o corpo como um sistema integrado envolvendo cérebro e imunidade? Muda bastante coisa. Por muitos anos, estudiosos da neurociência não interagiam com especialistas em imunologia e vice-versa. Hoje em dia, essas disciplinas estão se unindo na neuroimunologia e na medicina bioeletrônica porque na essência estamos entendendo que corpo e mente estão conectados mais profundamente do que pensávamos anteriormente. Platão já dizia: se você deseja curar a alma, deve cuidar do corpo; se quer curar o corpo, deve cuidar da alma. Essa sabedoria é bem conhecida. Estudantes universitários frequentemente ficam exaustos durante provas e acabam adoecendo por conta disso; todos conhecemos essa relação entre os sistemas nervoso e imunológico. Contudo, até agora não tínhamos clareza sobre essa interação. Com as investigações sobre o nervo vago, encontramos uma nova perspectiva: os sinais desse nervo funcionam como freios em um carro descendo uma ladeira rapidamente; essa ‘linha de freio’ pode diminuir a inflamação. Com isso em mente, temos potencial para realizar experimentos laboratoriais concretos ao estudar esses sinais nas fibras do nervo vago e descobrir como os sinais elétricos são convertidos em químicos para reduzir a inflamação; isso é fascinante.

By Canoas Informa

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