Vacina contra VSR para gestantes impede o agravamento da bronquiolite em recém-nascidos

A vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), integrada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde desde dezembro do ano passado, já apresenta resultados promissores nos primeiros meses de sua aplicação. Profissionais da pediatria e um estudo realizado pelo Infogripe, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), confirmam essa tendência.

Os dados coletados até a 20ª semana epidemiológica deste ano, que se encerrou em 23 de maio, indicam uma diminuição de 16,6% nos casos de síndromes graves de bronquiolite causadas pelo VSR em crianças entre 0 e 6 meses, quando comparados ao mesmo período do ano anterior.

Embora a redução pareça moderada, ao analisar faixas etárias similares, observa-se um aumento no número de casos graves. Entre as crianças de 6 a 12 meses, houve um crescimento de 12% em relação ao ano passado; para a faixa de 1 a 2 anos, o aumento foi de 13,5%; e para crianças de 2 a 4 anos, os casos cresceram em 17,7%.

Esses dados emergem em um contexto crítico para a circulação dos vírus respiratórios, com a transição do outono para o inverno — uma época em que as infecções respiratórias tendem a se espalhar mais devido à maior concentração das pessoas em ambientes fechados e mal ventilados.

Uma explicação para a resistência observada nos bebês com menos de 6 meses pode ser atribuída à introdução da vacina contra o VSR. O imunizante é administrado em gestantes a partir da 28ª semana gestacional, permitindo que os anticorpos sejam transferidos para os recém-nascidos, proporcionando proteção inicial contra a doença. Essa proteção dura cerca de seis meses, período considerado crítico para a infecção.

“Observa-se um aumento significativo nas internações por SRAG (síndrome respiratória aguda grave) entre crianças acima de seis meses até quatro anos que não foi registrado na faixa etária menor. Para esses bebês houve uma inversão desse quadro. Isso pode ser um reflexo da vacinação e da boa cobertura alcançada”, afirmou Tatiana Portella, pesquisadora do Infogripe.

Ainda é prematuro avaliar completamente o impacto da vacinação nas gestantes nesta temporada. A fase mais intensa da circulação do VSR pode continuar por algumas semanas, sugerindo que novos casos ainda podem surgir.

No entanto, médicos familiarizados com o padrão da doença já notam uma queda nas internações que indica um efeito positivo preliminar da vacina.

“O cenário atual é claro e reflete experiências semelhantes em outros países que implementaram essa vacinação. Observamos resultados positivos nos Estados Unidos, Escócia, Austrália e Argentina”, comentou Marco Aurélio Palazzi Sáfadi, vice-diretor da Faculdade Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. “Ademais, muitas gestantes vacinadas ainda não deram à luz; algumas foram imunizadas apenas há alguns meses e ainda não foi possível avaliar totalmente o impacto dessa vacinação.”

Sáfadi enfatiza que o momento ideal para administrar essa vacina é crucial. Dados anteriores provenientes do Reino Unido indicam que vacinar gestantes por volta da 28ª semana reduz as internações em até 85%, resultado obtido através do acompanhamento de cerca de 300 mil bebês. Especialistas acreditam que resultados semelhantes podem ser observados no Brasil.

“Estudos internacionais demonstram que não há motivos para adiar a vacinação. Quando as gestantes atingem a marca das 28 semanas é o momento certo para imunizá-las; isso garante anticorpos eficazes ao bebê”, ressalta Sáfadi. “A vacinação materna oferece proteção desde o primeiro dia após o nascimento, um período crítico devido aos riscos associados à infecção.”

Renato Kfouri, pediatra infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), observa que atualmente estamos no auge da temporada do VSR e afirma que os reais efeitos da vacinação serão compreendidos nas próximas semanas. Contudo, ele destaca que os efeitos já visíveis são esperados diante da alta cobertura vacinal no país.

<p“O Brasil tem alcançado excelentes índices vacinais; ao trocar informações com especialistas internacionais, percebo que ninguém conseguiu alcançar nossos números. Somos atualmente o segundo país com mais doses aplicadas no mundo”, comenta Kfouri. “Nos últimos cinco meses administramos mais doses do que os Estados Unidos durante várias temporadas; em breve poderemos estar na liderança.”

Apesar do recente início da vacinação das gestantes pelo SUS, as coberturas já mostram resultados positivos. Um levantamento realizado pela organização ImpulsoGov indica que entre as 27 capitais brasileiras, 24 superaram os 70% de cobertura vacinal entre grávidas — um desempenho consideravelmente superior ao visto nas campanhas contra Covid-19.

“É importante destacar que bronquiolite não deve ser tratada como uma simples gripe; trata-se de uma condição séria capaz de resultar em óbitos entre crianças menores de dois anos”, explicou Juliana Ramalho, gerente de saúde pública e relações governamentais da ImpulsoGov. “Um dos principais benefícios dessa vacina é a redução das internações hospitalares relacionadas à doença. A imunização impacta positivamente na atenção primária e nos demais níveis assistenciais.” Ela acrescentou: “Além disso, representa uma economia significativa nos custos associados ao tratamento intensivo necessário para bebês internados devido à bronquiolite.”

By Canoas Informa

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