Você sabia que o riso das crianças pode ser crucial para o seu desenvolvimento cerebral? Mais do que apenas uma expressão de felicidade, a risada infantil desempenha um papel importante no aprendizado, além de auxiliar na memória, na regulação emocional e na gestão do estresse.
A risada aparece antes da fala, permitindo que os pequenos estabeleçam conexões emocionais com o ambiente desde os primeiros meses de vida. Isso ocorre porque as áreas do cérebro ligadas às emoções se desenvolvem antes das que são responsáveis pela linguagem, conforme explica a neuropediatra Leticia Sampaio, do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr/HCFMUSP).
Mas como se dá esse fenômeno no cérebro infantil? Vamos entender melhor a seguir.
Mecanismos que impulsionam o riso nas crianças
No momento em que um bebê ou uma criança ri, diversas regiões do cérebro atuam em conjunto.
Letícia esclarece que “estruturas localizadas no sistema límbico — encarregadas das emoções — são ativadas especialmente em momentos de prazer, surpresa e interação social. Simultaneamente, áreas corticais ligadas à cognição e ao comportamento social ajudam a interpretar estímulos emocionais e contextos lúdicos”.
Adicionalmente, os circuitos motores também desempenham um papel fundamental, coordenando as expressões físicas do riso, como movimentos faciais, a vocalização e até mesmo o controle da respiração.
Além disso, há uma diminuição dos níveis de cortisol, conhecido como hormônio do estresse, e a liberação de substâncias associadas ao prazer e bem-estar, incluindo dopamina, endorfina e ocitocina.
Vantagens do riso na infância
Durante a infância, o desenvolvimento cerebral ocorre em ritmo acelerado. Nesse cenário, o riso atua como um indicativo de segurança para explorar o mundo ao redor e adquirir novos conhecimentos. Essa visão é compartilhada por Jacqueline Harding, especialista em primeira infância e pesquisadora na Universidade de Middlesex, nos Estados Unidos.
Jacqueline argumenta que o humor serve como uma “cola biológica” nas relações interpessoais. Ela afirma: “Momentos lúdicos proporcionam às crianças a oportunidade de liberar tensões de maneira segura enquanto mantêm laços com adultos acolhedores”.
A psicóloga Maria Beatriz Linhares, professora e pesquisadora da USP e membro do Núcleo de Ciência pela Infância (NCPI), acrescenta que o riso compartilhado é um forte indicador de vínculos afetivos saudáveis e segurança emocional. Ela enfatiza que essa experiência não só reforça a sintonia emocional entre a criança e seus cuidadores como também promove acolhimento.
Maria Beatriz salienta ainda que essas interações ajudam a estabelecer laços afetivos essenciais para um desenvolvimento humano sólido.
Entre os outros benefícios estão o apoio no crescimento das crianças, o fortalecimento da resiliência e a criação de conexões neurais fundamentais para regular emoções, desenvolver empatia e aprimorar habilidades sociais.
Os momentos dedicados à brincadeira funcionam como experiências de “corregulação”, onde a interação com adultos auxilia bebês e crianças na organização emocional de sentimentos que ainda não conseguem manejar sozinhos.
Embora o riso não elimine desafios ou estresse por completo, ele pode transformar a maneira como as crianças enfrentam essas situações.
A importância da conexão humana
Diante de uma rotina repleta de telas e distrações constantes, especialistas ressaltam que manter conexões humanas é fundamental para o desenvolvimento infantil saudável.
Um experimento conhecido na psicologia do desenvolvimento chamado “still face”, ou “paradigma da face imóvel”, ilustra essa relevância. Neste experimento, um cuidador interage com um bebê antes de interromper repentinamente suas expressões emocionais. Essa mudança provoca nos pequenos uma busca pela reconexão através do sorriso, vocalizações ou movimentos. Quando não conseguem chamar atenção dos adultos, os bebês frequentemente manifestam desconforto e irritação.
É importante ressaltar que essa conexão não exige atividades complexas; momentos simples do dia a dia — como conversar, cantar ou brincar — já são suficientes para estimular o cérebro infantil. Para Maria Beatriz Linhares, esses instantes lúdicos podem ser considerados algumas das melhores “vacinas” durante o processo de desenvolvimento das crianças.
