Um estudo recente revelou que mulheres que receberam a vacina contra o HPV durante a adolescência possuem um risco quase inexistente de falecer em decorrência de câncer do colo do útero antes dos 30 anos. Embora se saiba que a vacinação reduz cerca de 90% dos casos da doença, até agora não havia clareza sobre seu impacto na mortalidade.
Os pesquisadores da Universidade Queen Mary de Londres (QMUL) analisaram dados oficiais sobre mortalidade por câncer e vacinação entre mulheres com idades entre 20 e 34 anos para avaliar como a vacinação influenciou a taxa de sobrevida em relação ao câncer do colo do útero. Os achados, divulgados na revista científica The Lancet, indicam que não houve mudanças significativas nos índices de mortalidade entre aquelas que não foram vacinadas, enquanto as mulheres imunizadas após 2008 apresentaram uma redução considerável nas taxas de mortalidade.
A magnitude do impacto foi tão expressiva que os autores do estudo estimam que a chance de meninas vacinadas aos 12 ou 13 anos morrerem devido ao câncer do colo do útero antes dos 30 anos é praticamente zero. Para aquelas vacinadas na faixa etária entre 30 e 34 anos, o risco relativo de morte pela doença é reduzido em 63%.
Além disso, pela primeira vez na história, não houve registros de mortes por câncer do colo do útero entre mulheres de 20 a 24 anos na Inglaterra no período de 2020 a 2024. Os pesquisadores ressaltam que a vacina contra o HPV tem sido responsável por salvar centenas de vidas. Contudo, uma queda nas taxas de vacinação pode resultar em um aumento no número de mortes evitáveis.
Conforme dados da Organização Mundial da Saúde, o câncer do colo do útero ocupa a quarta posição entre os tipos mais comuns de câncer em mulheres. No Brasil, segundo informações do Instituto Nacional do Câncer (Inca), ele é o terceiro tumor mais frequente entre o público feminino. Os papilomavírus humanos (HPV) considerados de alto risco são responsáveis por cerca de 99% dos casos diagnosticados.
No contexto inglês, onde foi conduzido o estudo, a vacina também oferece proteção contra outros tipos de câncer, como os que afetam ânus, pênis, vagina, vulva, boca e garganta, além das verrugas genitais. A administração da vacina é realizada para meninos e meninas no oitavo ano do ensino fundamental, com reforços disponíveis em algumas localidades nos nono e décimo anos. No Brasil, a vacina está acessível gratuitamente pelo SUS para jovens entre 9 e 14 anos e é considerada uma medida crucial para prevenir infecções pelos tipos mais agressivos do vírus.
A partir de 2024, o Brasil implementou um esquema vacinal com dose única baseado nas evidências científicas mais recentes. Em 2025, novas diretrizes ampliaram o público-alvo para incluir adolescentes com idades entre 15 e 19 anos e grupos prioritários como usuários da PrEP, pessoas imunossuprimidas e aquelas com papilomatose respiratória recorrente.
A cobertura vacinal contra o HPV no Brasil está crescendo gradualmente. As estimativas atuais indicam uma taxa de imunização de 86% entre meninas e 74,5% entre meninos. Apesar desse avanço, ainda busca-se atingir a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde, que é de alcançar uma cobertura vacinal de 90% nas faixas etárias recomendadas.
A Organização Mundial da Saúde definiu uma estratégia global para o câncer do colo do útero com metas ambiciosas: até 2030, todos os países devem garantir que pelo menos 90% das meninas sejam vacinadas contra o HPV até completarem 15 anos; rastrear 70% das mulheres para detecção precoce; e assegurar tratamento para 90% das pacientes diagnosticadas com doenças relacionadas ao colo do útero.
