Revolução no diagnóstico: novo exame de HPV detecta quatro vezes mais casos de infecção

Uma pesquisa realizada em diversas áreas do Brasil revelou que a utilização de um novo teste molecular para detecção do papilomavírus humano (HPV) é capaz de identificar quase quatro vezes mais infecções pelo vírus, que é a principal causa do câncer cervical, em comparação ao exame Papanicolau. Essa abordagem, recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), deverá substituir o método tradicional no Sistema Único de Saúde.

O estudo foi realizado nas regiões Sul e Sudeste, bem como nas proximidades de Brasília, envolvendo 4.173 amostras cervicais coletadas de mulheres com idades variando entre 20 e 69 anos. Todas as participantes realizaram simultaneamente o exame Papanicolau e a nova análise molecular para detectar HPV de alto risco.

A taxa de positividade do teste molecular alcançou cerca de 25%, enquanto o Papanicolau apresentou uma média de apenas 5,7%. Ademais, foram encontrados casos de HPV de alto risco em 18% dos novos exames, um tipo que está mais associado ao desenvolvimento de lesões e câncer.

O especialista em Citopatologia e Oncologia Molecular Marco Zonta, que possui pós-doutorado em Infectologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), liderou a pesquisa e ressaltou a necessidade de métodos eficientes para detectar a presença do vírus:

“No Sul, o tipo prevalente de HPV foi o 16, o mais comum globalmente e relacionado ao câncer cervical. Em Sorocaba, observou-se uma maior incidência da família 50. É importante notar que essa prevalência se deu principalmente entre mulheres com idades entre 35 e 60 anos, faixa etária que não foi beneficiada pela vacinação contra o HPV iniciada em 2014.”

Os resultados ainda não publicados em periódicos científicos estão sendo apresentados às secretarias de Saúde em todo o país e foram divulgados pela primeira vez no Brasil no início de maio durante o Cervicolp 2026 – XXXV Encontro de Atualização em PTGI e Colposcopia, realizado em São Paulo. Antes disso, eles foram discutidos em congressos na Europa.

Embora os dados possuam relevância internacional, sua importância é ainda mais acentuada no Brasil, onde o Ministério da Saúde iniciou no ano passado a substituição do Papanicolau pelo teste molecular. A implementação do novo exame começou em 12 estados brasileiros, com planos para expansão por todo o território nacional até o final de 2026.

Entre os benefícios do teste estão uma maior sensibilidade diagnóstica e a diminuição da necessidade de exames ou intervenções desnecessárias. Além disso, quando o resultado é negativo, pode-se aumentar os intervalos entre as coletas. O Ministério da Saúde também destaca que essa metodologia proporciona um rastreamento mais equitativo e eficaz, alcançando mulheres em regiões remotas ou com menor acesso a serviços.

A nova metodologia analisa uma amostra cervical coletada similarmente ao Papanicolau e consegue detectar 14 genótipos do HPV considerados de alto risco. O vírus é a principal causa do câncer cervical; desse modo, essa testagem permite identificar sua presença no organismo antes que lesões ou câncer se desenvolvam em estágios iniciais, aumentando assim as chances de tratamento bem-sucedido.

“Os resultados obtidos são claros ao demonstrar que a política de rastreamento utilizando este teste trará vantagens tanto para a população quanto para os recursos da saúde pública. Embora o Brasil tenha adotado esta diretriz em novembro passado, ainda não houve uma implementação ampla do programa. Este projeto evidencia a relevância de um programa já aprovado pelo Brasil, mas cuja execução total ainda está pendente”, analisa Zonta.

A OMS estabelece que para eliminar o câncer cervical como um problema significativo de saúde pública até 2030 será necessário unir esforços entre vacinação, ampliação do rastreamento abrangente e tratamento precoce das lesões precursoras.

Zonta acredita que iniciativas móveis associadas ao uso dos testes moleculares podem desempenhar um papel crucial na ampliação do rastreamento em países com desigualdade no acesso aos serviços de saúde, como é o caso do Brasil.

By Canoas Informa

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