O impacto do nocebo: descubra por que algumas pessoas reagem e outras não às vacinas

É comum encontrar pessoas que, após se vacinarem, não sentem nenhum efeito colateral, enquanto outras relatam dores de cabeça ou dificuldade para levantar o braço por dias. Embora pareça contraditório, essas reações extremas são totalmente viáveis. Um recente estudo publicado na revista Science Translational Medicine descobriu fatores no sistema imunológico humano que podem explicar a variabilidade dos efeitos colaterais.

Conforme informações de um site especializado, padrões já foram notados em relação a quem apresenta esses sintomas; por exemplo, pessoas idosas costumam experimentar menos esses efeitos temporários. Além disso, algumas pesquisas indicam que o efeito nocebo — que é o oposto do efeito placebo e ocorre quando a expectativa de efeitos negativos aumenta sua intensidade ou probabilidade — pode ajudar a entender certos efeitos colaterais das vacinas.

No entanto, em certos casos, há indícios claros de que fatores biológicos estão envolvidos.

“Embora tenhamos conhecimento de que pessoas mais velhas tendem a ter menos reações às vacinas devido à diminuição da função imunológica associada à idade e que a dose administrada pode afetar a gravidade dos efeitos colaterais, os mecanismos biológicos por trás dessas variações individuais ainda não são completamente compreendidos”, explica Arnaud Didierlaurent, professor associado na Universidade de Genebra.

Diante da preocupação com possíveis reações adversas que podem levar à hesitação na vacinação, os cientistas se dedicaram a investigar os mecanismos biológicos relacionados a essas diferenças entre indivíduos. A pesquisa começou em 2021 e focou nas vacinas de mRNA contra a covid-19, envolvendo 51 participantes saudáveis que receberam as vacinas Spikevax (da Moderna) ou Comirnaty (da Pfizer-BioNTech).

Os voluntários foram acompanhados durante uma semana para identificar quaisquer reações adversas à vacina. Os sintomas avaliados incluíam dor no local da injeção, febre, fadiga e dores musculares.

Os achados revelaram que os efeitos colaterais eram mais frequentes após a segunda dose da vacina, corroborando observações anteriores. Além disso, testes sanguíneos mostraram uma conexão entre as reações às vacinas e um componente do sistema imunológico inato conhecido como interferon.

Os interferons são substâncias que o corpo produz naturalmente em resposta a infecções e desempenham um papel crucial na regulação da resposta imunológica. Existem três principais tipos: alfa, beta e gama, todos pertencentes a uma família maior chamada citocinas.

Níveis elevados de interferons têm sido associados à covid longa e a várias doenças autoimunes devido ao seu papel em criar um ambiente inflamatório no organismo. Embora essa inflamação seja desejável para combater infecções virais, o excesso pode ser prejudicial.

“Esse sistema de defesa imunológica inata é fundamental para combater infecções virais. Quanto mais ativa for a resposta natural do interferon de uma pessoa — mesmo antes da vacinação — mais intensas tendem a ser suas reações à vacina”, afirma Natacha Madelon, autora principal do estudo.

“Por razões ainda não totalmente compreendidas — possivelmente relacionadas a fatores genéticos ou ao microbioma específico da pessoa — alguns indivíduos apresentam uma assinatura imunológica ligada ao interferon mais acentuada antes mesmo de receberem a vacina”, complementa Didierlaurent. “Isso parece afetar a magnitude da reação à vacinação.”

Outro aspecto interessante foi observado em experimentos realizados com camundongos. O objetivo central das vacinas é ativar o sistema imunológico para desenvolver uma defesa específica contra patógenos.

A maioria das vacinas contém um antígeno, elemento crucial que alerta o sistema imunológico sobre o vírus real. Contudo, nas vacinas de mRNA, o processo é ligeiramente diferente: elas não introduzem um antígeno direto; em vez disso, fornecem um “plano” para que as células criem seu próprio antígeno. Apesar das diferenças no mecanismo de ação, o resultado final permanece consistente.

Entretanto, os pesquisadores descobriram que essa indução de uma resposta imune adaptativa pelas vacinas torna mais provável uma reação intensa — e efeitos colaterais acentuados — após a segunda dose.

No modelo experimental com camundongos, foi constatado que monócitos (um tipo de glóbulo branco) eram ativados e mobilizados com maior intensidade para o local da vacinação após receberem a segunda dose, resultando em inflamação visível através de sintomas como dor e vermelhidão.

A equipe enfatizou que esse mecanismo ainda precisa ser validado em estudos humanos para confirmar sua relevância. É importante ressaltar também que múltiplas doses são essenciais para algumas vacinas desenvolverem imunidade adequada contra doenças específicas.

Os pesquisadores alertam que não apresentar efeitos adversos não significa que a vacina não tenha funcionado corretamente.

By Canoas Informa

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