A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão ligado à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), anunciou o preço do lecanemabe, um medicamento destinado ao tratamento da doença de Alzheimer em suas fases iniciais e em casos de comprometimento cognitivo leve.
Para um paciente com peso médio de 70 kg, o custo mensal do tratamento, que inclui aplicações endovenosas a cada 15 dias, será de R$ 8.108,94, sem contar taxas e impostos. Com a inclusão de uma alíquota de 18%, que é a realidade na maioria dos estados brasileiros, o valor total pode chegar a R$ 11.075,62. O medicamento, conhecido comercialmente como Leqembi, é produzido pela empresa japonesa Eisai em colaboração com a Biogen.
O lecanemabe atua como um anticorpo monoclonal que se concentra na beta-amiloide, uma proteína cuja acumulação no cérebro ocorre anos antes do surgimento dos sintomas da doença de Alzheimer e que está relacionada ao progresso da enfermidade. Há evidências que sugerem que o medicamento pode desacelerar a progressão da doença, embora não provoque uma melhora nos sintomas já existentes.
A Anvisa aprovou o uso do lecanemabe em 22 de dezembro de 2025, com previsão para sua chegada ao mercado brasileiro no final de junho deste ano.
Este medicamento atua especificamente nas protofibrilas da beta-amiloide, cujos acúmulos são responsáveis pela morte neuronal. As protofibrilas representam a forma tóxica desta proteína.
“O grande diferencial do lecanemabe é seu duplo mecanismo de ação: ele remove as placas de beta-amiloide e neutraliza a cascata neurotóxica que impulsiona a evolução da doença”, explica Tatiana Branco, diretora médica da Biogen no Brasil.
O neurologista Paulo Caramelli, professor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que os resultados do estudo clínico de fase 3 sobre o lecanemabe revelaram que pacientes com Alzheimer em suas fases iniciais – seja demência leve ou comprometimento cognitivo leve – apresentaram uma redução média de 27% na velocidade da progressão da doença após 18 meses de tratamento em comparação àqueles que receberam placebo.
<p“Essa magnitude do efeito do lecanemabe é considerada modesta. Modelos matemáticos indicam que, ao longo desse período, os pacientes podem ter ganhado alguns meses”, complementa Caramelli.
É importante ressaltar também os possíveis efeitos adversos associados ao uso do medicamento, como edema e hemorragia cerebral. O grupo mais suscetível a esses efeitos colaterais é composto por indivíduos portadores do tipo genético apolipoproteína E4.
<p“Na minha opinião, foi acertada a decisão da Anvisa em não aprovar o uso dessa medicação para esse subgrupo específico devido ao elevado risco de efeitos colaterais. Para outros pacientes, a chance de eventos adversos varia entre 5% e 11%”, afirma Caramelli.
Antes da prescrição do tratamento com lecanemabe, alguns exames são necessários. Um deles é o estudo genotípico para apolipoproteína E – embora não seja coberto pelo Sistema Único de Saúde (SUS), esse procedimento é simples e disponível em laboratórios privados.
Além disso, é obrigatória a realização de uma ressonância magnética realizada até um ano antes do início do tratamento para garantir que não haja lesões hemorrágicas ou alterações cerebrais que impeçam a continuidade da terapia. Pacientes sob anticoagulantes também estão excluídos dessa terapia.
Rodrigo Nascimento, diretor médico da Eisai no Brasil, esclarece que as diretrizes da CMED para precificação consideram diversos fatores, incluindo a categoria do medicamento e comparações com países onde ele já está disponível no mercado, além dos benefícios clínicos e das evidências científicas associadas.
<p“O lecanemabe representa uma inovação significativa e resulta de décadas de pesquisa tecnológica. É um novo tipo de terapia. Quando analisamos todos os fatores envolvidos – desde sua inovação até os custos associados ao desenvolvimento dessas moléculas complexas e como os órgãos reguladores definem preços – chegamos ao valor atual”, comenta Nascimento.
Sendo um anticorpo monoclonal, o uso do lecanemabe requer supervisão médica durante todo o tratamento. O medicamento é administrado por via intravenosa em unidades hospitalares ou centros especializados em infusões. As aplicações são realizadas duas vezes por mês, com doses correspondentes a 10 mg por quilo do peso corporal do paciente.
