Um recente levantamento divulgado na Revista Bioética revela que 90% dos médicos em início de carreira no Brasil sentem-se despreparados para comunicar más notícias aos seus pacientes. Além disso, 40% deles indicam que não receberam qualquer tipo de treinamento para essa forma de interação durante a formação acadêmica.
A pesquisa foi realizada por acadêmicos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com um total de 2.418 médicos que se candidataram a programas de residência na instituição. A média de idade dos participantes era de 27 anos, e eles completaram um questionário uma hora antes do exame.
Entre os respondentes, 48,7% se formaram em instituições públicas e 51,3% em privadas. Além disso, 37,5% já haviam passado por outro programa de residência, o que lhes conferiu maior vivência na prática médica.
Apenas 61,2% dos entrevistados afirmaram ter recebido instruções sobre como comunicar más notícias durante a graduação, enquanto 61,8% relataram ter participado de treinamentos dedicados ao assunto nesse mesmo período.
“Transmitir uma má notícia nunca se tornará uma boa notícia; no entanto, existem maneiras compassivas de apoiar o paciente a enfrentar as dificuldades que ele irá encarar”, enfatiza Daniel Alveno, fisioterapeuta e professor universitário envolvido com cuidados paliativos na Unifesp há aproximadamente 15 anos, em entrevista à Agência Bori.
De maneira significativa, 92% dos médicos expressaram que não se sentiram capacitados ao final da formação para realizar essa comunicação. Para 83,9%, esse processo deveria incluir a participação de outros profissionais como psicólogos e enfermeiros. Apesar disso, apenas 3,6% afirmaram nunca ter realizado essa comunicação em sua trajetória profissional.
“Os resultados desta pesquisa evidenciam lacunas na formação médica relacionada à comunicação de más notícias, acentuadas pela falta de treinamento específico na graduação e pela percepção comum entre os profissionais de que não estão adequadamente preparados para tal prática ao final da formação. Diante disso, é essencial reformular os currículos médicos para incluir um treinamento estruturado nesta área, abordando tanto aspectos técnicos quanto emocionais”, argumentam os autores no artigo publicado.
A pesquisa também trouxe à tona uma contradição ética significativa: quase 99% dos participantes manifestaram que desejariam receber a notícia diretamente, sozinhos ou acompanhados por um familiar. Mais de 90% prefeririam que essa informação fosse transmitida de forma integral. No entanto, mais de 30% confessaram estar dispostos a participar da chamada “conspiração do silêncio”, ou seja, omitir informações a pedido da família.
“Ter conhecimento técnico não é suficiente se não soubermos como transmitir isso ao paciente. Essa habilidade também precisa ser ensinada; não é algo inato. Estudar comunicação é parte fundamental da formação do profissional da saúde”, completa Alveno.
