A Merck, conhecida por ter introduzido as estatinas há quase quatro décadas, desenvolveu um novo comprimido altamente eficaz que pode reduzir os níveis de colesterol LDL, o denominado colesterol “ruim”, a patamares raramente observados em adultos.
Esse novo medicamento, chamado enlicitide, atua bloqueando a proteína PCSK9 no fígado, que dificulta a eliminação do colesterol pelo organismo. Com a inibição da PCSK9, os níveis de LDL diminuem significativamente, resultando em uma redução de até 20% nas taxas de infartos e derrames entre pacientes com alto risco já no primeiro ano após o uso.
Nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 6 milhões de adultos possam se beneficiar de medicamentos que atuam bloqueando a PCSK9.
O líder da pesquisa na Merck ressaltou o compromisso da empresa em tornar esse comprimido acessível. A ideia é oferecer uma alternativa às injeções mensais ou quinzenais de anticorpos monoclonais que desempenham função semelhante. Atualmente, apenas cerca de 1% dos pacientes aptos utilizam essas injeções, como o Praluent (da Regeneron e Sanofi) e o Repatha (da Amgen). Muitos pacientes relutam em se autoaplicar as injeções, enquanto complicações com seguradoras quanto ao pagamento são frequentemente citadas por cardiologistas. O custo desses medicamentos chega a ultrapassar US$ 500 (aproximadamente R$ 2.666) mensais.
Vários estudos realizados ao longo dos anos revelaram que níveis mais baixos de LDL estão associados a uma diminuição nas taxas de infartos e derrames. Não há evidências de desvantagens em manter níveis extremamente baixos de LDL, como aqueles entre 10 e 20 mg/dL. Para comparação, adultos que não fazem uso de medicamentos para controle do colesterol geralmente apresentam níveis superiores a 100 mg/dL.
"Quanto menor o nível, melhor certamente", afirma Daniel Soffer, cardiologista da Universidade da Pensilvânia.
Desenvolvimentos
A aprovação dos medicamentos injetáveis há dez anos indicou que a proteína PCSK9 poderia ser um alvo promissor para um comprimido. Christie Ballantyne, pesquisador principal dos ensaios clínicos na Merck e diretor do Centro de Prevenção de Doenças Cardiometabólicas do Baylor College of Medicine no Texas, explica que inicialmente os químicos consideravam essa tarefa inviável.
A dificuldade residia na necessidade de identificar uma substância capaz de se ligar à vasta superfície plana da proteína PCSK9 — mesmo local onde os anticorpos dos fármacos injetáveis se conectam. Em escala celular, esses anticorpos são grandes demais; portanto, uma molécula menor típica dos comprimidos seria inadequada.
Após uma década de pesquisa, a Merck desenvolveu uma inovação: um círculo composto por peptídeos, com um centésimo do tamanho de um anticorpo, porém maior do que as moléculas pequenas habituais encontradas em comprimidos.
Dean Li, presidente dos Laboratórios de Pesquisa da Merck, aponta que essa abordagem pode possibilitar a criação de comprimidos para substituir diversos medicamentos atualmente administrados via injeção.
Li ressalta ainda que é mais econômico produzir e transportar comprimidos em comparação com medicamentos injetáveis que requerem refrigeração. Ele enfatiza o objetivo da Merck em manter o preço do novo comprimido baixo para garantir sua ampla utilização tanto nos Estados Unidos quanto internacionalmente. O desejo é fazer com que os pacientes considerem tomar um comprimido de PCSK9 algo tão comum quanto ingerir aspirina ou medicamentos para pressão arterial.
"A aspiração é democratizar o acesso ao PCSK9", declara ele. "E essa aspiração tem potencial para se concretizar".
Um comprimido acessível e diário com efeitos semelhantes aos dos injetáveis “tem o potencial para ser revolucionário”, afirma Christopher Cannon, cardiologista no Brigham and Women’s Hospital em Boston. Ele presta consultoria a várias empresas farmacêuticas, exceto à Merck.
Próximas etapas
Ainda existem muitos desafios pela frente. A Merck está realizando um extenso estudo envolvendo mais de 14.500 participantes para verificar se a redução do colesterol LDL realmente resulta em menos infartos e derrames e também diminuição das mortes cardiovasculares.
A empresa planeja solicitar autorização à Food and Drug Administration (FDA) para comercializar o enlicitide no início de 2026 e espera poder lançar o medicamento em 2027.
Cannon expressa entusiasmo pela novidade: "Enxergo isso como parte do futuro", conclui.
