Com mais de 700 mil mortes anualmente, o câncer de fígado se destaca como uma grave preocupação de saúde pública. Uma pesquisa detalhada divulgada na revista Lancet revela que aproximadamente 60% dos casos poderiam ser evitados ao tratar as causas principais da enfermidade, que incluem hepatite B, hepatite C, consumo excessivo de álcool e doenças hepáticas associadas a fatores metabólicos, como a obesidade.
Este tipo de câncer é responsável por cerca de 900 mil novos diagnósticos todos os anos em todo o mundo, posicionando-se como o sexto câncer mais prevalente e a terceira maior causa de óbitos por câncer. Se a tendência de crescimento se mantiver, a estimativa é que até 2050 o número anual de novos casos quase dobre, atingindo 1,5 milhão globalmente.
A pesquisa identificou que tanto a doença hepática relacionada ao álcool quanto distúrbios metabólicos podem contribuir com cerca de um terço dos novos diagnósticos de câncer hepático. Esses achados corroboram observações feitas por especialistas em fígado em suas práticas clínicas ao longo dos anos.
“O câncer de fígado é uma condição comum que provoca grande sofrimento e morte. Para mim, como médico, é angustiante saber que muitos casos são evitáveis”, declarou Brian P. Lee, professor associado na Faculdade de Medicina Keck da Universidade do Sul da Califórnia, que não participou da pesquisa.
Entendendo o desenvolvimento do câncer hepático
Segundo Hashem El-Serag, chefe do departamento de medicina do Baylor College of Medicine e coautor do estudo recente, a maioria dos casos de câncer no fígado aparece em indivíduos com cirrose. Essa condição envolve cicatrização significativa e irreversível do fígado, prejudicando sua função normal.
Infecções pelos vírus da hepatite B e C provocam inflamação no fígado, e se não forem tratadas adequadamente podem resultar em cicatrização e danos permanentes. O uso excessivo de álcool e condições metabólicas também favorecem o acúmulo anormal de gordura no fígado, contribuindo para inflamações adicionais.
Lee explica que a combinação da inflamação e do acúmulo de gordura pode criar um “caminho” para a formação de cicatrizes hepáticas. Essas cicatrizes podem danificar o DNA das células do fígado e potencialmente levar ao desenvolvimento do câncer: “Existem várias maneiras diferentes pelas quais isso pode ocorrer”, acrescenta ele.
Desafios no diagnóstico precoce
A análise indicou que a porcentagem de casos de câncer hepático decorrentes das hepatites B e C deve cair para 63% até 2050, uma diminuição em relação aos 68% registrados em 2022. Por outro lado, os casos relacionados ao consumo de álcool e à doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) devem aumentar.
Cerca de quatro em cada dez adultos globalmente são afetados pela MASLD, uma condição caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no fígado. Os principais fatores predisponentes incluem obesidade e diabetes tipo 2.
Um grupo específico dentro dos pacientes com MASLD pode desenvolver uma forma avançada conhecida como esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), considerada uma “doença silenciosa” devido à sua capacidade de evoluir para cirrose ou câncer sem apresentar sintomas perceptíveis.
Atualmente, as diretrizes recomendam monitoramento regular para o câncer hepático entre aqueles com histórico de hepatite viral ou cirrose já estabelecida. Contudo, pacientes com MASH frequentemente não se encaixam nesses critérios, conforme observa Kaseb; eles podem ter cicatrizes hepáticas sem apresentar qualquer sintoma visível.
<p“A triagem para doenças hepáticas deve começar na atenção primária”, enfatiza Mary Rinella, hepatologista da Universidade de Medicina de Chicago e principal autora das diretrizes sobre MASLD. Ela sugere que médicos adotem uma métrica chamada Fib-4 para avaliar potenciais cicatrizes hepáticas utilizando exames sanguíneos rotineiros. Isso é especialmente válido para indivíduos com diabetes tipo 2 ou obesidade acompanhados por pelo menos um fator adicional de risco metabólico.
A MASLD pode ser revertida através da adoção de hábitos saudáveis, incluindo alimentação equilibrada e prática regular de exercícios físicos. Recentemente, medicamentos voltados para perda peso mostraram eficácia na reversão das cicatrizes hepáticas.
“Se você conseguir interromper os fatores causadores das cicatrizes no fígado, terá reduzidas chances do desenvolvimento do câncer”, conclui Rinella.
A influência do álcool na saúde hepática
A incidência da doença hepática relacionada ao álcool tem aumentado significativamente. Em um estudo publicado recentemente, Lee e sua equipe revelaram que o risco dessa enfermidade entre grandes consumidores (definidos como mulheres que ingeriram pelo menos 10 doses semanais e homens com 15) nos EUA mais que dobrou entre 1999 e 2020 — mesmo com um padrão semelhante no consumo geral durante esse período. Isso sugere que os grandes bebedores atuais podem sofrer mais com os efeitos nocivos do álcool no fígado em comparação aos anteriores.
Essa mudança pode ser atribuída à alteração no perfil dos grandes bebedores. A pesquisa revelou que as mulheres agora representam uma parte maior desse grupo quando comparadas às últimas duas décadas; elas são mais suscetíveis a desenvolver gordura e lesões no fígado causadas pelo álcool. Além disso, indivíduos com síndrome metabólica — um conjunto interligado de condições que elevam os riscos relacionados ao diabetes e doenças cardiovasculares — também têm mostrado um aumento significativo nos danos hepáticos causados pelo álcool.
Tanto o consumo excessivo quanto a presença dessas condições metabólicas podem prejudicar o fígado separadamente; no entanto, aqueles que apresentam ambas as situações estão sob um risco considerável elevado.
“O uso abusivo do álcool está crescendo assim como as taxas de obesidade e diabetes”, finaliza Lee. “As previsões indicam que continuaremos enfrentando altas taxas desses problemas relacionados ao fígado”
