A recente propagação de informações incorretas que associam o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a uma proposta para retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida gerou quase 1 milhão de postagens nas redes sociais em menos de 72 horas. Esse episódio se tornou o terceiro maior fenômeno político nas plataformas digitais em 2026.
Essa análise foi realizada pelo Instituto Democracia em Xeque (IDX) e divulgada no último sábado (26). O estudo baseou-se na avaliação das publicações que começaram a circular desde a última quinta-feira.
Ao todo, foram contabilizadas 977,6 mil postagens em um período de 55 horas, resultando em 8,5 milhões de interações, incluindo comentários, curtidas e compartilhamentos.
Durante as primeiras 24 horas do debate sobre o assunto, o IDX registrou 669,9 mil publicações. Esse número posiciona o “caso Nossa Senhora Aparecida” como o terceiro maior gerador de discussões online no ano corrente.
De acordo com o levantamento do IDX, a polêmica sobre a padroeira só não teve um alcance maior nas primeiras 24 horas do que as discussões acerca do confronto entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF) em 1º de setembro, após uma reportagem do Estadão sobre o caso Master, e também sobre as conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, ocorridas em 13 de maio.
A desinformação teve origem quando membros do governo reavivaram um projeto apresentado em 2007 e que foi arquivado em 2008. A primeira publicação relacionada ao tema foi feita pelo influenciador Jeferson de Oliveira Monteiro, conhecido por seu perfil governista “Dilma Bolada”, segundo um monitoramento realizado pela campanha de Flávio Bolsonaro.
Conforme dados apresentados pela equipe do candidato ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a postagem de Jeferson, registrada às 21h50 da quarta-feira, dia 23, desencadeou uma avalanche de boatos e distorções logo nos minutos subsequentes.
A mensagem publicada dizia: “Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil. Tudo com Jesus. Nada sem Maria. E Bolsonaro na cadeia!”. A reportagem não conseguiu estabelecer contato com Jeferson para esclarecimentos.
A informação falsa ganhou força por volta das 20h13 da quinta-feira seguinte. Nesse momento, o programa Em Pauta da GloboNews noticiou uma suposta preparação da Igreja Católica para reagir a uma mobilização evangélica relacionada ao projeto, sugerindo que isso poderia impactar os católicos a favor de Lula. Horas depois, a emissora fez uma correção oficial: “Nós pedimos desculpas pelo erro”, informou uma nota exibida pelo canal.
Apesar da confirmação pública sobre a falsidade das informações vinculadas a supostas agressões feitas por Flávio Bolsonaro contra Nossa Senhora Aparecida, George Marques da Silva e Silva, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), compartilhou um post incentivando a disseminação dessas mensagens.
No conteúdo compartilhado por ele estava escrito: “Parem de divulgar retratação. Deixem o assunto rolar. Eles fizeram isso em outras eleições e quase nos ferram. Continuem compartilhando que nossa senhora foi atacada; precisa chegar no interior do Nordeste, no interior do Norte”. Essa postagem posteriormente foi excluída. Flávio Bolsonaro pediu a prisão preventiva do servidor por conta dessa situação.
As publicações voltaram a ganhar destaque neste sábado devido à decisão do ministro André Mendonça do STF, que ordenou a remoção das postagens que afirmavam que Flávio Bolsonaro pretendia retirar o título de padroeira do Brasil atribuído a Nossa Senhora Aparecida. A nova onda de postagens dos perfis alinhados à esquerda aproveitou essa decisão para mudar o foco da discussão religiosa para questões relacionadas à censura e à liberdade de expressão, conforme apontado pelo IDX.
No recorte analisado pelo IDX envolvendo 345 postagens de perfis políticos monitorados, constatou-se que os grupos posicionados à esquerda produziram 66% das publicações; aqueles à direita corresponderam a 33%, enquanto a imprensa ficou com apenas 1%. Ao considerar as interações totais nessas publicações, os perfis à esquerda foram responsáveis por 70% delas e os da direita por 30%.
Dentro desse conjunto analisado pelo IDX, ficou evidente que a mobilização contra Flávio Bolsonaro constituiu-se como o “principal eixo da conversa”. As 345 publicações foram categorizadas em quatro frentes distintas; três delas foram predominantemente associadas aos grupos da esquerda política.
Dentre essas postagens relacionadas ao tema “retirar o título de Aparecida”, elas representaram 53% do total das publicações analisadas. Os grupos à esquerda responderam por impressionantes 80% desse montante, enquanto os da direita contribuíram com apenas 19%.
