Excesso de telas na infância compromete competências para o futuro profissional

Atualmente, o planeta enfrenta uma crise global que não é provocada por vírus, mas sim pela disseminação de informações digitais. Essa análise foi feita pelo destacado educador italiano Francesco Tonucci, que é o fundador da Rede Mundial de Cidade das Crianças. Para Tonucci, a utilização excessiva e precoce de dispositivos móveis como smartphones e tablets entre crianças de 0 a 6 anos representa uma “segunda pandemia” no século XXI, com impactos ainda mais severos do que os causados pela pandemia da covid-19.

Segundo ele, enquanto a primeira pandemia afetou principalmente os idosos, esta nova crise está comprometendo o presente e o futuro das crianças. O especialista ressalta que a origem desse problema começa desde os primeiros anos de vida, impulsionada pela ingenuidade dos pais e cuidadores que recorrem às telas para acalmar os pequenos. Isso resulta em consequências prejudiciais ao neurodesenvolvimento em uma fase crítica da infância. Ele menciona que até mesmo as mães quebram momentos especiais com seus filhos ao se distrair com seus celulares.

Por exemplo, durante a amamentação, se uma criança olha para sua mãe enquanto ela está focada na tela do celular, esse “momento mágico” do contato visual se perde. “Não é apenas lamentável; é a perda de uma conexão significativa”, afirma Tonucci. “À medida que as crianças crescem um pouco mais, observamos pais entretendo seus filhos com dispositivos em restaurantes, estações de trem e aeroportos. Embora inicialmente pareça uma solução eficaz para acalmar situações complicadas, a longo prazo isso traz sérios prejuízos”, completa.

Tonucci apresenta uma perspectiva humanizada ao enfatizar a importância do momento atual das crianças. Ele expressa sua preocupação com o vício em telas que compromete o brincar livre e a habilidade de lidar com o tédio. Especialistas de outras áreas também estão alertando sobre o impacto das telas nas competências socioemocionais necessárias para a autonomia, cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho.

A especialista em tecnologia Michelle Schneider observa: “O uso excessivo de dispositivos eletrônicos limita a habilidade de interpretar expressões faciais e desenvolver empatia. Em um mundo dominado por ferramentas avançadas de inteligência artificial, onde a empatia se tornará um diferencial competitivo importante”.

Embora Tonucci foque mais na realidade atual e na perda da infância, enquanto Schneider projeta suas preocupações para o futuro dos adultos que possam carecer dessas habilidades no mercado laboral, ambos fundamentam suas opiniões em pesquisas científicas recentes que destacam a relevância dos primeiros seis anos da vida para o desenvolvimento neurológico.

Conforme o relatório “The Science of Early Childhood Development” (A ciência do desenvolvimento na primeira infância), elaborado pelo Center on the Developing Child da Universidade Harvard, entre 0 e 6 anos o cérebro humano forma mais de 1 milhão de novas conexões neurais por segundo. Esse período é único em termos de agilidade no desenvolvimento neurológico, tornando políticas públicas voltadas para crianças altamente benéficas tanto individualmente quanto coletivamente. Estudos realizados pelo economista ganhador do prêmio Nobel James Heckman indicam que cada dólar investido na primeira infância pode resultar em um retorno futuro superior a US$ 7.

Para enfrentar o que ele denomina como “nova pandemia”, Tonucci sugere como solução o conceito de brincar livre. Com base em pesquisas qualitativas conduzidas pela Rede Mundial de Cidade das Crianças através da escuta ativa junto aos menores de seis anos, as crianças demonstram preferência por interagir fisicamente com amigos ao invés de ficarem conectadas às telas dos celulares e desejam essa interação sem a supervisão constante dos adultos.

A proposta parece simples; no entanto, enfrenta desafios decorrentes do crescimento urbano desorganizado ao longo das últimas décadas, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil. Por essa razão, além da proibição do uso de celulares nas escolas, a Rede Mundial de Cidades das Crianças defende a implementação de políticas públicas que tornem as cidades mais acolhedoras para as crianças nas ruas. Isso incluiria permitir que meninas e meninos próximos dos 10 anos possam transitar desacompanhados por adultos em trajetos escolares ou nas proximidades de suas residências.

By Canoas Informa

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