A suspensão do uso da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan gerou dúvidas sobre o andamento do programa de imunização em massa da doença. Essa decisão foi tomada após a identificação de 42 casos de reações adversas graves, incluindo duas fatalidades.
Eder Gatti, que dirige o Programa Nacional de Imunizações (PNI), afirmou durante o anuncio que não existe questionamento acerca da eficácia do imunizante. Ele explicou que a suspensão foi uma medida cautelar para investigar os casos relevantes após a administração de mais de 500 mil doses.
O Ministério da Saúde destacou que esses eventos adversos são incomuns, representando apenas 0,008% das doses aplicadas, e ainda não há confirmação sobre a relação entre a vacina e os óbitos registrados.
A Butantan-DV é considerada a principal solução do Sistema Único de Saúde (SUS) para proteger a população em uma estratégia sustentável ao longo do tempo. A vacina é administrada em dose única e existe uma expectativa de ampliação do contrato atual, que prevê a entrega de 3,9 milhões de doses até o final de 2027, podendo chegar a um total de cerca de 60 milhões.
Contudo, o avanço da vacinação em larga escala está condicionado à finalização da análise sobre as reações adversas associadas ao imunizante. O Ministério da Saúde informa que não há um prazo definido para divulgar os resultados dessa investigação, enquanto o Butantan admite que irá reconsiderar a velocidade da produção das doses.
“O tempo necessário será aquele requerido para concluir as apurações. Por isso não estipulamos um prazo. Vamos monitorar diariamente o andamento da investigação”, declarou Alexandre Padilha, ministro da Saúde.
“Acelerando a conclusão da investigação e definindo sobre o uso da vacina, teremos um cenário mais favorável”, acrescentou ele.
Padilha também mencionou que o Butantan seguirá com os estudos clínicos exigidos pela Anvisa para permitir a vacinação em pessoas com 60 anos ou mais. Atualmente, o registro do órgão regulador abrange indivíduos entre 12 e 59 anos.
A vacina recebeu aprovação da Anvisa no final de novembro de 2025 e no mês seguinte, o Ministério da Saúde firmou um contrato no valor de R$ 367,9 milhões para aquisição de 3,9 milhões de doses.
Vacina japonesa
No cenário atual, o SUS conta apenas com a Qdenga como opção para imunização contra a dengue. Para 2024, o ministério adquiriu aproximadamente 10 milhões de doses por R$ 1,3 bilhão da farmacêutica Takeda, sediada no Japão, destinada ao público entre 4 e 60 anos.
Padilha informou que cerca de 8 milhões dessas vacinas já foram entregues e que estão previstas mais remessas totalizando 9 milhões para os anos seguintes. A vacina oferecida pela Takeda também atende à faixa etária dos 4 aos 60 anos.
Tanto as vacinas do Butantan quanto as da Takeda custaram cerca de R$ 95 ao SUS. Entretanto, segundo o ministério, existem duas grandes vantagens na vacina desenvolvida pelo laboratório paulista: ela é administrada em dose única enquanto a concorrente requer duas doses, além disso, a parceria com a WuXi promete aumentar significativamente a produção.
A necessidade por uma imunização em massa se tornou uma prioridade para o SUS após um aumento alarmante nos casos de dengue em 2024, quando foram registradas 6.321 mortes — números que já somam 177 fatalidades em 2026.
A situação crítica enfrentada pelo governo Lula (PT) em relação aos dados de 2024 levou à pressão sobre Nísia Trindade, então ministra da Saúde. Em agosto daquele ano, ela reafirmou que o SUS apostava na vacina do Butantan como sua principal estratégia. “Embora continuemos utilizando essa vacina como uma tática importante, não será nossa prioridade principal em 2025. Dependendo do desenvolvimento do imunizante do Butantan, pode ser uma opção para 2026”, declarou na ocasião.
