Antes mesmo da detecção de um tumor por meio de uma tomografia, processos já ocorrem no pulmão. Células reagem a fatores como tabagismo, poluição ou mutações silenciosas, resultando em uma inflamação que, embora não constitua uma doença por si só, cria um ambiente propício para o surgimento dela.
Uma equipe composta por mais de cem cientistas, sob a liderança de Charles Swanton do Francis Crick Institute no Reino Unido, conseguiu identificar esse processo oculto no sangue, até cinco anos antes do diagnóstico do câncer.
Esse resultado foi publicado na edição de 25 de junho da revista científica Cell e é considerado pelos pesquisadores um passo inicial em direção a um exame sanguíneo que pode prever o câncer de pulmão —a forma mais letal da doença globalmente— e, futuramente, contribuir para sua prevenção.
Stephen Stefani, oncologista brasileiro associado ao grupo Oncoclínicas e membro da Americas Health Foundation, elogiou a pesquisa como um dos achados mais promissores na área de prevenção do câncer nos últimos anos. No entanto, ele ressalta que ainda existe um longo caminho entre a pesquisa e a aplicação clínica.
O estudo teve início com um vasto banco de sangue congelado conhecido como Biobanco do Reino Unido, que contém amostras e dados de saúde de centenas de milhares de voluntários britânicos coletados antes do diagnóstico.
A equipe utilizou um algoritmo de inteligência artificial para examinar quase 3 mil proteínas presentes nessas amostras. Aos poucos, os pesquisadores descartaram candidatos até restarem 14 proteínas específicas.
Essas proteínas, quando combinadas com informações sobre idade, histórico de tabagismo e presença de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), mostraram-se mais eficazes na previsão do desenvolvimento do câncer de pulmão nos anos seguintes em comparação aos modelos tradicionais atualmente utilizados na medicina.
A equipe validou esses padrões em outras oito populações ao redor do mundo —incluindo Estados Unidos, China e Islândia— totalizando mais de 55 mil indivíduos.
Em um dos grupos estudados em Taiwan, composto principalmente por não fumantes, algumas das mesmas proteínas também indicaram risco aumentado —um aspecto significativo considerando que as diretrizes atuais ignoram frequentemente aqueles que nunca fumaram.
Stefani explica que a assinatura das 14 proteínas não representa o tumor em si, mas sim o ambiente propício onde ele pode surgir.
“O grande mérito desse estudo foi utilizar inteligência artificial para analisar mais de 3 mil proteínas sanguíneas e identificar 14 delas que funcionam como uma assinatura capaz de prever uma predisposição ao câncer de pulmão com até cinco anos de antecedência”, afirma o oncologista.
Segundo ele, essa pesquisa não apresenta um diagnóstico definitivo —mas sim uma representação do processo contínuo: inflamação, reparo tecidual e resposta a danos acumulados antes mesmo da presença de células malignas.
“A assinatura proteica não garante que alguém desenvolverá câncer; ela indica que o corpo está passando por processos biológicos relacionados à inflamação e reparo tecidual que podem aumentar a probabilidade do surgimento do tumor”, esclarece.
Esse entendimento começa a responder a uma questão intrigante entre médicos: por que alguns fumantes crônicos nunca desenvolvem câncer pulmonar enquanto pessoas nunca expostas ao tabaco adoecem?
Embora cigarros e poluição sejam conhecidos como fatores desencadeantes, o estudo sugere que não é apenas a exposição a esses agentes que importa, mas se eles provocam essa resposta inflamatória específica nas células pulmonares.
Um fumante cujo organismo não ativa esse processo pode manter o hábito por longos períodos sem criar condições favoráveis para o tumor; em contrapartida, indivíduos expostos à poluição intensa ou portadores de determinadas mutações genéticas podem apresentar essa resposta inflamatória mesmo sem ter fumado.
A assinatura proposta capturaria essas variações biológicas individuais —algo que apenas o histórico de tabagismo não revela adequadamente.
A partir de experimentos realizados com camundongos e culturas celulares, os cientistas recrearam em laboratório os efeitos da exposição à poluição no pulmão humano: partículas inaladas estimulam as células imunológicas a liberar uma proteína inflamatória que torna algumas células pulmonares mais suscetíveis à transformação tumoral quando já possuem mutações associadas ao câncer.
Esse mesmo mecanismo também foi observado em casos relacionados à DPOC e fibrose pulmonar, sugerindo uma origem inflamatória comum para essas doenças.
“A poluição desempenha um papel significativo nesse cenário”, afirma Stefani.
Atualmente, as diretrizes recomendadas para rastreamento sugerem tomografias torácicas anuais com baixa dose para indivíduos entre 50 e 80 anos com pelo menos 20 anos-maço de tabagismo —um método utilizado para avaliar quanto tempo e quanto alguém fumou— incluindo aqueles que continuam fumando ou pararam há menos de 15 anos.
No entanto, essas diretrizes excluem pessoas com histórico menor de tabagismo ou aquelas que pararam há muito tempo —especialmente não fumantes— grupo este crescente entre os diagnósticos relacionados ao câncer pulmonar ligados a mutações no gene EGFR mais comuns entre quem nunca fumou.
Caso seja validada adequadamente, a assinatura das 14 proteínas poderia facilitar a identificação daqueles que realmente necessitam realizar exames precoces independentemente desses critérios existentes.
Ainda assim, os autores enfatizam a necessidade de cautela. A assinatura das 14 proteínas ainda precisa ser transformada em um exame clínico disponível —um resultado preliminar requerendo anos adicionais para validação antes se tornar confiável na prática médica.
Stefani destaca também que é importante ter cautela na interpretação desse tipo de descoberta fora dos consultórios médicos. “Estamos lidando com um achado ainda em fase experimental. Os participantes dos estudos nem sempre refletem adequadamente toda a população. Não temos certeza se alterar essa assinatura proteica efetivamente diminui o risco da doença. Além disso: ter uma assinatura proteica mais baixa não implica risco zero nem justifica continuar fumar ou ignorar outros cuidados”, pondera o oncologista.
Caso esta assinatura resista aos próximos testes validados, poderá avançar na prevenção do câncer pulmonar rumo a uma abordagem individualizada semelhante àquela já aplicada em outras áreas da oncologia: vigilância personalizada.
