Estudo aponta eficácia limitada de medicamentos para Alzheimer

Recentemente, uma das mais renomadas instituições de saúde do planeta gerou polêmica ao entrar em desacordo com associações de neurologistas e psiquiatras. Isso ocorreu após a divulgação de um parecer que questiona a eficácia de certas drogas contemporâneas voltadas para o tratamento da doença de Alzheimer, afirmando que estas apresentam resultados insatisfatórios e pouco impacto na terapia.

A análise que levou a essa conclusão foi realizada por pesquisadores da colaboração Cochrane, uma rede internacional que, ao longo de trinta anos, se destacou como uma entidade independente fundamental na formulação de consensos médicos.

O crescimento desse consórcio se deve à sua capacidade de compilar e avaliar estudos com rigor metodológico e imparcialidade, visando determinar a efetividade de medicamentos e tratamentos.

Duas semanas atrás, a Cochrane divulgou uma revisão focada nos medicamentos que inibem a beta-amiloide, proteína intimamente ligada à doença de Alzheimer e alvo principal para muitos desenvolvedores farmacêuticos. Essa substância é conhecida por se acumular em placas no cérebro dos indivíduos afetados pela condição, que provoca a morte neuronal e compromete funções cognitivas essenciais, como a memória.

Os fármacos atualmente disponíveis atacam a beta-amiloide utilizando anticorpos monoclonais — agentes imunológicos criados em laboratório especificamente para descompor essa proteína. No entanto, segundo os pesquisadores da Cochrane, esta abordagem apresentou resultados inconsistentes.

O relatório afirma: “Em relação à função cognitiva e à gravidade da demência, o efeito dos anticorpos monoclonais contra a beta-amiloide após 18 meses de tratamento é mínimo. Em termos de capacidade funcional, o impacto é pequeno, na melhor das hipóteses.” O texto também observa que “a remoção eficaz da amiloide do cérebro não parece estar ligada a efeitos clinicamente relevantes em pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve decorrente do Alzheimer.”

Francesco Nonino, chefe do comitê responsável pela revisão no Instituto de Ciências Neurológicas de Bolonha (Itália), sugere que futuras investigações sobre novos medicamentos para o Alzheimer deveriam explorar “diferentes mecanismos de ação”.

Nos últimos dias, o parecer provocou reações adversas por parte de várias associações médicas e acadêmicas. Estas alegam que a Cochrane foi excessivamente crítica em suas conclusões e apontam limitações na metodologia utilizada. Tal crítica é incomum para um consórcio amplamente reconhecido pelo seu padrão elevado na avaliação médica fundamentada em evidências.

Um dos principais pontos levantados pelos críticos diz respeito ao fato da revisão ter agrupado medicamentos com princípios ativos distintos. Essa aglomeração pode ter obscurecido os resultados positivos obtidos por algumas terapias com eficácia clínica comprovada.

Nick Fox, neurologista do University College London, comentou em artigo na revista Lancet: “Interpretar as estimativas agregadas como uma representação uniforme do efeito desta classe de medicamentos pode ocultar diferenças significativas entre tratamentos específicos.” Ele ressalta ainda que “uma redução persistente na taxa de declínio cognitivo, mesmo que modesta, pode adiar transições clínicas importantes como perda de autonomia ou necessidade de suporte.”

Por outro lado, um dos responsáveis pela revisão defendeu em nota que a metodologia aplicada foi elaborada para evitar viés e está alinhada com as experiências clínicas relatadas por diversos profissionais da saúde.

Edo Richard, professor da Universidade Radboud na Holanda e especialista no tratamento do Alzheimer, afirmou: “Atendo pacientes semanalmente em minha clínica e anseio por opções terapêuticas eficazes. Embora alguns medicamentos aprovados ofereçam benefícios limitados a certos pacientes, há uma demanda significativa por tratamentos mais eficientes. Infelizmente, os fármacos anti-amiloides não atendem essa necessidade e podem apresentar riscos adicionais.”

A revisão da Cochrane abrangeu 17 ensaios clínicos envolvendo sete tipos diferentes de drogas. Duas delas — lecanemab e donanemab — já receberam aprovação em vários países ao redor do mundo, incluindo o Brasil.

A terceira droga analisada, aducanumab, teve sua aprovação nos EUA em 2021 através de um processo controverso que gerou críticas e resultou na saída de membros do comitê regulador. A Biogen, empresa responsável pelo desenvolvimento deste medicamento, decidiu descontinuá-lo em 2024 devido a problemas financeiros e redirecionou seus esforços para o lecanemab.

Os outros quatro fármacos testados não obtiveram aprovação devido ao desempenho insatisfatório nos ensaios clínicos. Em paralelo aos testes realizados em 2022, surgiu um escândalo relacionado à manipulação de dados científicos em estudos pré-clínicos importantes sobre Alzheimer e beta-amiloide.

Muitos profissionais acreditam que os medicamentos anti-amiloides podem ser benéficos para uma pequena fração dos pacientes que recebem diagnóstico precoce adequado — utilizando biomarcadores — permitindo identificar aqueles com maior potencial para se beneficiarem dessa forma terapêutica.

Apesar das controvérsias no debate acerca do tema, organizações médicas recomendam cautela antes de descartar o uso dessas drogas. A Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) integra os grupos que sustentam que medicamentos não aprovados não deveriam ser incluídos na análise da Cochrane.

A entidade declarou: “Não se deve ignorar evidências recentes positivas por interpretações excessivamente generalizadas.” Adicionalmente ressaltaram: “A atual fase terapêutica para a doença de Alzheimer requer nuance, responsabilidade e atualização contínua.”

Lucas Schilling, neurologista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), destacou que o estudo da Cochrane não considerou adequadamente um subconjunto específico entre os pacientes com Alzheimer que tendem a obter melhores resultados com anti-amiloides. “O desafio reside no acesso limitado atualmente às avaliações precoces dentro do sistema saúde usando biomarcadores capazes de identificar quais pacientes têm chances reais de reduzir a progressão da doença através desse tipo de tratamento”, conclui o pesquisador.

By Canoas Informa

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