Esgotamento em alta: a crise do burnout e os afastamentos no Brasil

O fenômeno do esgotamento profissional, conhecido como burnout, vem se tornando uma preocupação crescente no Brasil, sendo frequentemente abordado tanto em conversas cotidianas quanto em consultas com profissionais de saúde mental e medicina ocupacional.

Dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), obtidos junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), revelam que entre os anos de 2023 e 2025, o total de afastamentos relacionados ao burnout saltou de 1.760 para 6.985. Esse crescimento representa um impressionante aumento de 296%, considerando apenas aqueles casos que resultaram em mais de 15 dias fora do trabalho. O número real pode ser ainda maior se incluirmos afastamentos temporários ou situações não comunicadas aos empregadores.

“Não há um teste específico que confirme a presença de burnout. A avaliação é realizada através de um exame clínico que investiga as queixas apresentadas pelo trabalhador. Esses casos frequentemente envolvem esgotamento físico e uma condição conhecida como despersonalização, onde o indivíduo começa a operar no modo automático, desconectando-se do ambiente e tornando-se ineficaz em suas funções ao longo do tempo”, esclarece Francisco Cortes Fernandes, presidente da Anamt.

Fernandes também enfatiza a importância de analisar o ambiente laboral. “É fundamental observar as condições do local de trabalho, como carga excessiva, controle rigoroso e ausência de reconhecimento. Precisamos entender como os trabalhadores desempenham suas funções e identificar seus sintomas para chegar a um diagnóstico preciso sobre o burnout.”

O psiquiatra Arthur Guerra destaca que os sinais do burnout podem ser confundidos com outros distúrbios mentais. “Os sintomas são semelhantes aos de diversas condições psiquiátricas. O indivíduo pode ter dificuldades para dormir, passando horas na cama sem conseguir relaxar. Em outros casos, ele tenta incessantemente cumprir suas obrigações sem sucesso. Isso é acompanhado por sentimentos persistentes de inutilidade e ineficiência, culminando em tristeza e irritabilidade. Esses comportamentos caracterizam o burnout”, explica.

Dentre as causas desse aumento observável nos casos estão a constante conexão ao trabalho, a falta de períodos adequados para descanso, a sobrecarga de estímulos e ambientes disfuncionais.

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), envolvendo empresas que empregam 300 mil trabalhadores, indica que 89% das organizações não possuem políticas para restringir comunicações fora do horário laboral. Além disso, 65% dos participantes relataram a ausência de programas voltados à prevenção da saúde mental.

“As pessoas perderam a capacidade de descansar adequadamente; agora descansar se tornou uma meta a ser alcançada. Vivemos em um mundo que não oferece espaço para as pausas necessárias. Sempre há uma nova meta ou informação a ser consumida e conteúdos para serem produzidos”, observa Aline Wolff, psicóloga vinculada ao Comitê Olímpico Brasileiro.

Wolff ainda acrescenta que o burnout pode estar ligado à sensação de falta de propósito. “Muitas vezes as pessoas continuam produzindo sem entender claramente o porquê disso. Esse aspecto é crucial no desenvolvimento do burnout: realizar tarefas automaticamente e alcançar metas sem perceber um significado por trás disso gera um estado mental desgastante”.

Ambiente Profissional

Gabriel Okuda, psiquiatra no Hospital Oswaldo Cruz, argumenta que embora o burnout seja uma condição individual, ele também reflete questões estruturais no ambiente profissional. Dentre os problemas estão equipes pequenas, cobranças desmedidas, falta de autonomia e dificuldade em equilibrar trabalho e vida pessoal.

“Ao considerar um trabalhador que se afasta devido à sobrecarga emocional, é essencial entender que essa situação impacta toda a equipe: o número insuficiente de membros ou exigências inadequadas afetam não apenas quem se afasta mas todos ao seu redor. Muitas vezes os colegas acabam assumindo mais tarefas devido à ausência do colega afastado, gerando um efeito cascata”, salienta Okuda.

Segundo Okuda, o tratamento deve incluir uma análise das condições laborais existentes. “O burnout está intimamente relacionado ao ambiente profissional; simplesmente receitar antidepressivos ou sugerir terapia não é suficiente. É vital minimizar os fatores estressantes presentes no local de trabalho, podendo ser necessária uma reestruturação das equipes ou redução na carga horária. Portanto, precisamos investigar as condições desse ambiente”.

By Canoas Informa

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