O Brasil está se tornando um importante campo de testes para a aplicação de inteligência artificial (IA) em processos eleitorais, o que poderá servir como aprendizado para diversas eleições programadas para o próximo ano. Esta é a visão de Bruno Lewicki, diretor de políticas públicas da OpenAI na América Latina, sobre o pleito brasileiro deste ano.
Em uma conversa no podcast A Máquina, Lewicki expressou que a empresa se preparou adequadamente e acredita que a eleição ocorrerá sem grandes problemas relacionados ao uso da IA. Contudo, ele observou que muitas regulamentações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) são recentes e ainda não se sabe como serão implementadas na prática.
Referente à proibição de conteúdos gerados por IA nas 72 horas antes e 24 horas após a votação, Lewicki destacou que essa responsabilidade recai sobre as redes sociais, e não sobre as empresas. “A norma do TSE não menciona a geração de imagens ou conteúdo sintético. Ela apenas proíbe a publicação, republicação e impulsionamento desses materiais”, afirmou.
* Como a OpenAI se organizou para o pleito?
A primeira medida adotada foi garantir transparência. No contexto da inteligência artificial no Brasil, uma das principais inquietações é saber: “O que foi criado por inteligência artificial e o que não foi?”. Atualmente, não é fácil distinguir entre o real e o artificial. Por isso, todo conteúdo gerado pelo ChatGPT é acompanhado de uma etiqueta digital que inclui metadados sobre sua origem e uma marca d’água invisível para identificar imagens criadas pela ferramenta.
* E quanto à verificação de textos?
Com essa ferramenta específica, isso não é possível. Existem outras opções disponíveis, mas nenhuma delas é exclusiva. Outro aspecto relevante é o acesso à informação. No Brasil, são enviadas diariamente cerca de 215 milhões de mensagens ao ChatGPT, representando uma fonte valiosa de dados, desde que estes sejam confiáveis. O modelo já foi treinado para evitar informações enganosas ou tendenciosas, além das parcerias com veículos da mídia.
Neste período eleitoral, um cuidado adicional consiste em incluir fontes oficiais como o TSE e veículos jornalísticos respeitáveis.
O terceiro ponto envolve o monitoramento contínuo realizado pelas equipes responsáveis pela segurança e integridade das políticas de uso dos produtos da OpenAI. Essas diretrizes já proíbem a maioria das práticas que podem gerar distúrbios durante as eleições. Entretanto, apenas proibir não é suficiente; é necessário implementar sistemas internos eficazes para detectar essas violações. A empresa tem investido em melhorias constantes nesses sistemas para garantir seu funcionamento adequado durante as eleições no Brasil.
* O que está proibido em relação ao conteúdo eleitoral?
A cada ano eleitoral, o TSE publica novas diretrizes abordando questões emergentes. Uma das novidades introduzidas em 2026 estabelece que modelos de IA estão impedidos de ranquear, recomendar ou influenciar candidatos e partidos direta ou indiretamente. Essa questão já era tratada na prática pela OpenAI, pois os modelos foram desenvolvidos para evitar viés, especialmente em assuntos políticos sensíveis. No entanto, trata-se de uma nova norma sem precedentes legais ainda definidos pelo TSE.
Relatórios indicaram que alguns modelos – incluindo o ChatGPT – ainda estariam recomendando ou ranqueando conteúdos. Aprendemos bastante com isso e aplicamos esse conhecimento para aprimorar nossas ferramentas. Temos políticas rigorosas contra a personificação indevida para fins eleitorais ou difamação. O uso em campanhas eleitorais também é restrito a atividades administrativas específicas. Recentemente, o ChatGPT passou a exibir anúncios na versão gratuita e em uma versão paga no Brasil; porém, anúncios políticos estão ausentes nessa plataforma – assim como no resto do mundo – especialmente neste ano eleitoral.
* Vocês aumentaram a equipe ou implementaram novas tecnologias devido à eleição brasileira?
Não houve contratação adicional nesse sentido. A tecnologia está em constante evolução diariamente. O Brasil está se destacando como um grande exemplo nas eleições atuais. Em 2026, teremos um momento decisivo devido à expansão da IA globalmente. Uma série de eleições ocorrerá no próximo ano em países como França e muito do conhecimento adquirido aqui será fundamental nesse contexto. Tenho notado um crescente interesse entre meus colegas envolvidos com políticas públicas e relações governamentais na França e Espanha…
