Brasil registra aumento recorde de mortes evitáveis por câncer do colo do útero

A ausência de uma política pública de prevenção está resultando na morte de mulheres por uma doença que poderia ser evitada. Em 2024, o Brasil contabilizou 7.493 óbitos por câncer do colo do útero, o maior número absoluto desde 2000, quando foram registradas cerca de 3,9 mil mortes.

Os dados são provenientes do Observatório da Saúde Pública, da ONG Umane, que utiliza informações do DataSUS-SIM. O câncer de colo do útero poderia ser prevenido com uma ampla vacinação contra o HPV e exames preventivos.

Também foi observado um aumento de 13,4% nas mortes nos últimos três anos. Em 2023, foram registradas 7,2 mil mortes e, no ano anterior, 6,9 mil. Mesmo com o crescimento nos números absolutos, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) indica que o cenário no país está “estacionário”.

A chefe substituta da Divisão de Vigilância e Análise de Situação (Divasi) do instituto, Flávia Nascimento Carvalho, ressalta a importância de não se limitar à análise dos números totais, enfatizando a necessidade de estudos para avaliar se as taxas de mortalidade estão aumentando ou diminuindo ao longo do tempo.

Um estudo divulgado em 2025, que analisou aproximadamente 40 anos de dados, indica uma tendência estacionária no país, com disparidades regionais: enquanto Sudeste e Centro-Oeste apresentam queda, o Nordeste registra aumento, e Norte e Sul permanecem estáveis.

As diferenças regionais estão associadas às desigualdades socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde, impactando a cobertura de rastreamento do câncer do colo do útero, o diagnóstico tardio e, consequentemente, a maior mortalidade, conforme apontado por Carvalho.

O médico Glauco Baiocchi, líder do Centro de Referência em Tumores Ginecológicos do A.C. Camargo Câncer Center, destaca a dificuldade em identificar a razão do aumento no número absoluto de mortes, salientando a necessidade de investigar se houve, de fato, um aumento real nos óbitos ou apenas uma melhora na avaliação e notificação dos casos.

De acordo com o Inca, o câncer do colo do útero é o terceiro mais comum entre as mulheres, com uma taxa de incidência de 7,4%, ficando atrás apenas do câncer de mama (30%) e do câncer de cólon e reto (10,5%).

As principais vítimas da doença foram mulheres com 65 anos ou mais, representando 32,6% dos óbitos, mulheres pardas (48,3%) e com menor escolaridade (0 a 7 anos de estudo, 52,3%).

Segundo a superintendente-geral da Umane, Thais Junqueira, o perfil das vítimas reflete as condições em que essas mulheres vivem, incluindo desigualdades no acesso à saúde, à renda e à infraestrutura básica.

O rastreamento da doença e a vacinação contra o HPV são as principais estratégias de prevenção. Baiocchi enfatiza que o câncer de colo do útero é uma doença em que é possível diagnosticar e intervir para impedir sua progressão.

O exame de papanicolau deve ser realizado em mulheres de 25 a 64 anos pelo menos uma vez por ano e, após dois resultados negativos anuais, a cada três anos. No entanto, 12,5% das mulheres nessa faixa etária declararam nunca ter realizado o exame em suas vidas, conforme o Vigitel Brasil 2024.

A vacinação contra o HPV obteve uma cobertura de 75,41% entre pessoas de 9 a 14 anos em 2024, com uma adesão maior entre meninas (83,44%) do que entre meninos (67,73%). Apesar de ter sido ampliada em 2025, atingindo 80,10% do público-alvo, a cobertura permaneceu abaixo da meta de 90%.

Em agosto do ano passado, o Ministério da Saúde iniciou gradualmente a implementação de uma nova tecnologia para detecção da doença: o teste molecular do DNA-HPV. O exame permite um intervalo seguro de cinco anos após resultado negativo e já está disponível em sete estados brasileiros.

Entre 2026 e 2028, o Inca projeta que o Brasil terá 781 mil novos casos de câncer por ano, com 19.310 casos de câncer do colo do útero a cada ano, representando um risco estimado de 17,59 casos a cada 100 mil mulheres. Essas informações são do jornal Valor Econômico.

By Canoas Informa

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