Dois novos casos de possível erradicação do HIV foram revelados por médicos, com os pacientes interrompendo o uso de antirretrovirais e tendo o vírus não detectado em exames subsequentes. Um dos indivíduos, identificado como o paciente de Kansas City, localizado na cidade mais populosa do estado do Missouri (EUA), está sem tratamento há 14 meses.
O segundo paciente, que também apresentava um histórico de hepatite B, completou um ano sem tratamento contra o HIV e continua com carga viral indetectável.
A carga viral é considerada detectável quando um exame identifica a presença do HIV no sangue em quantidades mensuráveis. Em contrapartida, uma carga viral indetectável indica que os níveis do vírus são tão baixos que os testes não conseguem detectá-lo. Quando esse status é mantido durante o tratamento, não há risco de transmissão sexual.
Com esses dois novos relatos, o total de casos de cura ou remissão do HIV registrados pela Sociedade Internacional de Aids (IAS) saltou de 11 para 13.
O paciente de Kansas City, um homem de 21 anos, recebeu em 2018 o diagnóstico tanto de HIV quanto de uma forma severa de leucemia. Antes do início do tratamento, ele possuía mais de 2 milhões de cópias do vírus por mililitro de sangue e apresentava uma quantidade drasticamente reduzida de células imunológicas.
Em outubro de 2020, ele recebeu um transplante de células-tronco provenientes de uma doadora não relacionada, mas compatível. A doadora possuía duas cópias da mutação rara CCR5-delta32, a qual impede que as formas mais comuns do HIV acessem as células.
Após o transplante, o paciente enfrentou complicações e precisou receber um reforço das células-tronco. Em fevereiro de 2025, os antirretrovirais foram descontinuados e, após 14 meses, os exames continuavam negativos para a presença do vírus no sangue e células infectadas capazes de reiniciar a infecção.
No caso do segundo paciente, também foi realizado um transplante com células-tronco de um doador que possuía duas cópias da mutação CCR5-delta32. Este caso era considerado mais desafiador devido à presença de diferentes variantes do HIV no organismo do paciente, que podiam utilizar diversas vias para entrar nas células.
Os medicamentos antirretrovirais foram suspensos pouco mais de quatro anos após o transplante. Passados 12 meses desde a interrupção dos remédios, a carga viral continuava indetectável e os pesquisadores não conseguiram detectar vírus replicáveis ou material genético completo do HIV nas amostras intestinais.
A suspensão dos medicamentos resultou na reativação da hepatite B em apenas 25 dias, uma vez que parte dos antirretrovirais também controlava essa infecção.
Embora esses casos sejam promissores, eles ainda são considerados possíveis curas devido ao tempo relativamente curto sem medicação. Os pesquisadores precisam monitorar esses pacientes por um período prolongado para confirmar se o HIV realmente não retornará.
Segundo Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a terminologia mais apropriada seria “remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais”.
“Isso significa que ao interromper o tratamento, o vírus não volta. Em alguns casos específicos, temos fortes evidências indicando que o vírus já não existe mais”, explica Diaz.
No entanto, não existe um exame único capaz de verificar todas as partes do corpo para garantir a ausência total de células infectadas ocultas. Por essa razão, mesmo em casos anteriores documentados como curados, os pacientes continuam sob acompanhamento médico regular.
Diaz ressalta que é necessário esperar pelo menos dois anos sem medicação para que as evidências quanto à remissão se tornem mais robustas. A interrupção dos antirretrovirais deve ser realizada apenas em contextos experimentais, pois na maioria dos indivíduos o HIV tende a retornar rapidamente após a suspensão dos tratamentos.
