O psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, que coordena o Ambulatório de Tratamento de Dependências de Comportamentos do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Unifesp, argumenta que nem todo apostador com problemas se enquadra no diagnóstico clínico de dependência do jogo. Com uma experiência de aproximadamente 30 anos no tratamento de jogadores compulsivos, ele destaca essa distinção.
Segundo Vieira Júnior, existe um terceiro perfil que se situa entre o jogador recreativo e o dependente: o “investidor iludido”. Este tipo de apostador acredita que encontrou uma estratégia ou sistema que lhe permitirá garantir lucros nas apostas. “Esse indivíduo também gera complicações e pode atender a critérios para um diagnóstico de transtorno do jogo, mas não necessariamente é um dependente”, explica.
Atualmente, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) está avaliando se as normas aplicáveis a casos de alcoolismo também devem ser consideradas em situações relacionadas à ludopatia durante processos demissionais.
Vieira Júnior acredita que a comparação com o alcoolismo é válida, embora não possa ser considerada absolutamente equivalente; no vício do jogo, o cérebro responde como se estivesse dependente, mesmo na ausência de substâncias químicas. “A dependência é uma relação e não um efeito causado por uma droga”, ressalta.
Entretanto, os dois vícios podem estar interligados. De acordo com a psiquiatra Lívia Beraldo, do Hospital Sírio-Libanês, três em cada quatro jogadores patológicos apresentam algum diagnóstico psiquiátrico associado, sendo o alcoolismo um dos mais frequentes. Ela menciona que esse cenário resulta na formação de uma tríade clássica envolvendo tabagismo e outras formas de dependência.
A profissional explica que o jogador pode não consumir álcool imediatamente antes ou durante as apostas; contudo, é comum que abuse dessa substância após jogar, como forma de lidar com a angústia das perdas ou para facilitar o sono. Para Beraldo, a presença de comorbidade indica uma gravidade maior do quadro clínico e representa um risco nos tratamentos especializados quando uma condição é negligenciada em favor da outra.
A similaridade entre esses transtornos levou à inclusão do transtorno do jogo na versão mais recente do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), publicada em 2013. Essa classificação agora o posiciona dentro das dependências em vez dos transtornos relacionados ao controle dos impulsos, categoria onde estão distúrbios como tricotilomania e automutilação, conforme aponta Vieira Júnior.
Estudos clínicos mostram que cerca de 50% das pessoas diagnosticadas com transtorno do jogo relatam abuso de substâncias. Além disso, até 63% dos indivíduos que buscam tratamento para esse distúrbio já apresentaram algum transtorno relacionado ao uso de substâncias ao longo da vida. Pesquisas em neuroimagem revelam ainda circuitos neurais comuns entre essas condições, complementa Beraldo.
Critérios
No DSM-5, publicado em 2013, estão descritos nove critérios para diagnosticar o transtorno do jogo. Esse distúrbio é caracterizado como um comportamento “problemático persistente e recorrente” que resulta em “sofrimento ou comprometimento clinicamente significativo”.
O diagnóstico é confirmado quando estão presentes quatro ou mais dos nove critérios listados:
- * Necessidade crescente de apostar quantias maiores para alcançar a excitação desejada;
- * Inquietude ou irritabilidade quando tenta reduzir ou parar de jogar;
- * Tentativas frustradas e repetidas para controlar ou interromper o hábito;
- * Preocupação constante com jogos (planejamento das próximas apostas e busca por dinheiro para jogar);
- * Jogar frequentemente em momentos de angústia;
- * Retornar ao jogo após perdas financeiras na tentativa de recuperar os prejuízos;
- * Esconder a extensão do envolvimento com jogos por meio de mentiras;
- * Sofrer perdas pessoais, sociais e profissionais devido ao jogo (como relacionamentos significativos ou empregos);
- * Depender financeiramente de outros para quitar dívidas geradas pelo jogo.
Para Aderbal Vieira Júnior, a dependência pode ser definida por três dimensões principais. A primeira refere-se à sensação de falta de liberdade: a pessoa sente-se obrigada a jogar mesmo ciente dos danos causados. A segunda dimensão diz respeito à disfuncionalidade — os danos concretos causados pelo jogo são especialmente financeiros. A terceira dimensão envolve o empobrecimento existencial: a vida da pessoa passa a girar exclusivamente em torno das apostas, levando ao abandono de relações e atividades diversas.
A dificuldade em estabelecer diagnósticos claros nos casos que chegam à Justiça do Trabalho está relacionada à falta dessa fronteira nítida entre os diferentes níveis da problemática. “Os casos extremos são sempre mais simples de diagnosticar; as situações intermediárias demandam maior complexidade na avaliação”, afirma ele. Nesses casos mais sutis, segundo Vieira Júnior, cabe ao perito judicial realizar uma investigação detalhada para distinguir indisciplina e patologia.
No ano passado, o Ministério da Saúde registrou 6.157 atendimentos presenciais no SUS relacionados ao jogo — quase o dobro dos 3.490 atendimentos registrados em 2024.
A pesquisa TIC Domicílios 2025 realizada pelo Cetic.br revelou que cerca de 30 milhões de brasileiros acima dos 10 anos já participaram de apostas online; isso representa aproximadamente um em cada cinco usuários da internet no Brasil. Além disso, constatou-se que essa prática é mais comum entre homens (25%) em comparação às mulheres (14%).
