A Euterpe oleracea, frequentemente chamada de açaí, é uma fruta típica da Amazônia que é amplamente consumida pelas comunidades do estado do Pará. Devido ao seu elevado teor de compostos bioativos, o açaí tem se destacado tanto no Brasil quanto em outros países como um alimento com propriedades funcionais e nutracêuticas.
Pesquisas científicas têm confirmado várias das características que os habitantes da Amazônia atribuem ao açaí: a fruta apresenta ações anti-inflamatórias, antioxidantes, anticancerígenas, cardioprotetoras e neuroprotetoras. Esses efeitos benéficos estão relacionados aos compostos fenólicos presentes na fruta, especialmente às antocianinas, como o cianina-3-glucosídeo e o cianidina-3-rutinosídeo, que conferem ao açaí sua coloração roxa.
No cotidiano das comunidades ribeirinhas, o consumo de açaí começa na infância e é associado a uma sensação de “relaxamento”. Essa percepção levou à formação de uma colaboração científica para investigar como essa fruta pode servir como um eficaz neuroprotetor, especialmente em relação à ansiedade e depressão entre adolescentes.
Da Bélgica ao Pará
O professor Hervé Rogez, um cientista belga que vive no Pará há 32 anos, ficou fascinado pelo açaí. Ele atualmente lidera o Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA) na Universidade Federal do Pará (UFPA). Motivado por sua curiosidade acerca das propriedades do açaí, Hervé e seus estudantes exploram as áreas alagadas nas ilhas próximas a Belém (PA) em busca dos frutos dessa planta.
A meta era investigar se a sensação de relaxamento associada ao consumo do açaí também poderia ser atribuída aos compostos fenólicos presentes na fruta. Assim, ele procurou minha ajuda devido à minha experiência em avaliação neurocomportamental relacionada ao uso de substâncias psicoativas, sendo eu coordenadora da área de comportamento no Laboratório de Farmacologia da Inflamação e do Comportamento (LAFICO).
O professor Hervé foi o responsável pelo desenvolvimento de um suco clarificado de açaí, um produto biotecnológico obtido por meio da centrifugação e microfiltração da polpa do fruto. Esse suco é uma fração aquosa rica em polifenóis e isenta de fibras, proteínas, carboidratos e lipídios. Dessa maneira, qualquer resultado obtido nas pesquisas pode ser diretamente relacionado aos compostos fenólicos isolados.
Esse suco clarificado foi objeto de estudo em um projeto dirigido pela doutoranda Taiana Simas, sob orientação do professor Hervé e minha orientação também. O objetivo era avaliar seu potencial como um fator neuroprotetor contra ansiedade e depressão.
Pesquisa
A adolescência é caracterizada por um intenso processo de maturação cerebral, que inclui refinamento das sinapses e reorganização dos circuitos neurais. Nesse período, o cérebro dos jovens é particularmente suscetível a influências externas e estressores, como o uso de substâncias psicoativas.
Diante disso, nosso interesse residia em descobrir como esse suco clarificado de açaí poderia oferecer proteção ao cérebro em desenvolvimento dos adolescentes. Como parte das investigações iniciais típicas desse tipo de pesquisa científica, realizamos testes preliminares com ratos machos que tinham idades correspondentes ao início da adolescência humana (cerca de 10-18 anos).
Um estudo anterior conduzido pelo professor Hervé revelou que os moradores das áreas circunvizinhas a Belém consomem aproximadamente 500 mL de açaí diariamente. O teor de antocianinas encontrado na polpa do fruto gira em torno de 865 mg/L. Para simular esse consumo entre os animais utilizados no experimento, determinamos uma dose equivalente de 5,85 mL do suco clarificado.
Os ratos receberam o suco através de bebedouros dispostos nas gaiolas e tinham liberdade para consumir o açaí clarificado durante 12 horas diárias, entre 18h e 6h.
Após dez dias com essa dieta enriquecida pelo suco clarificado do açaí, os animais passaram por uma série de testes comportamentais voltados para investigar manifestações ansiosas e depressivas além dos efeitos sobre suas capacidades cognitivas.
Os resultados mostraram que incluir o suco clarificado na dieta dos ratos não afetou sua locomoção geral. No entanto, observou-se um comportamento ansiolítico nos animais que ingeriram o produto; eles mostraram maior exploração da área central durante os testes no campo aberto.
A eficácia na redução dos comportamentos associados à ansiedade foi corroborada pelos resultados obtidos no teste do labirinto em cruz elevado. Esses resultados indicaram um aumento na porcentagem tanto das entradas quanto do tempo gasto nos braços abertos do labirinto pelos ratos que consumiram o suco clarificado, além da diminuição do índice geral de ansiedade nos animais testados.
