Lula e Flávio buscam conquistar eleitores jovens e idosos, grupos que podem decidir o pleito.

Osires Rezende, um escritor aposentado de 73 anos, expressa sua nostalgia ao afirmar: “Sinto falta de homens como Pedro Simon, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola”. Em contraste, Tiago Coutinho, de 25 anos e funcionário de uma empresa familiar, diz: “Não quero votar em nenhum desses candidatos”.

Apesar da diferença de quase cinquenta anos entre eles, ambos os eleitores compartilham uma decisão semelhante em relação às eleições presidenciais de outubro: a intenção de não escolher nenhum candidato.

Para Osires, o desafio é menor, já que o voto é opcional para aqueles com mais de 70 anos. Por outro lado, Tiago está ainda avaliando suas opções e promete tomar uma decisão até o próximo domingo, dia 4, quando ocorre o primeiro turno das eleições.

Ambos residentes em Brasília, representam um segmento do eleitorado que as campanhas dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) buscam conquistar. Os votos dos jovens entre 16 e 24 anos (totalizando 5,5 milhões ou 12,5% do eleitorado) e dos cidadãos com mais de 70 anos (17 milhões ou 15,75% do total) são considerados cruciais para a vitória nas urnas.

A desilusão política de Osires começou em 2022, quando ainda era obrigado a votar. Ele já havia apoiado o PT no passado e tinha filiação ao PDT, mas hoje se diz decepcionado com a política. Essa frustração o levou a optar por Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2018, embora tenha se arrependido rapidamente.

O que motivou seu arrependimento foi o movimento “Lava Toga”, que visava investigar supostos abusos cometidos por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), mas que foi interrompido por aliados do governo Bolsonaro. “Ali percebi que não havia compromisso com nada”, declara Osires.

Flávio Bolsonaro? Apenas para barrar Lula

A família de Tiago também tenta persuadi-lo a escolher um candidato – neste caso, Flávio Bolsonaro. Embora se identifique como direitista, ele não encontra políticos que correspondam às suas expectativas.

<p“Admiro Jair Bolsonaro pela sua honestidade; já Flávio não me transmite confiança. A honestidade é um fator crucial para mim”, comenta Tiago. “Mas sem dúvida ele é uma opção menos ruim em comparação a Lula.”

Os familiares argumentam que apoiar Flávio no primeiro turno seria uma estratégia para evitar uma possível vitória de Lula – algo que ele considera apenas no segundo turno.

Candidatura ao PT para contrabalançar

Por outro lado, jovens eleitores estão sendo motivados a apoiar o PT. Gabriela Rojas, estudante de 16 anos que votará pela primeira vez, afirma: “Escolho Lula porque discordo das ideias de Flávio e seu pai. Além disso, Lula implementou políticas voltadas aos mais necessitados.”

Gabriela menciona que seus pais são advogados ambientais engajados com questões progressistas e que influenciaram sua visão política. No início deste ano, ela decidiu tirar seu título eleitoral junto com sete amigas da mesma idade. Jovens entre 16 e 17 anos podem votar se desejarem – este grupo representa aproximadamente 1,6 milhão de brasileiros.

A estudante também percebe um aumento do conservadorismo entre seus colegas. “Muitos meninos estão tirando títulos eleitorais buscando retornar ao passado político do Brasil”, observa Gabriela, referindo-se ao slogan “Make America Great Again” usado pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Jovem bolsonarista contrário à esquerda

Felipe Guerra tem 23 anos e não pensa em faltar às urnas nesta eleição. Após votar no número 22 na última eleição, ele agora está mais convicto em sua escolha: deixou de ser apenas um eleitor para se tornar membro ativo do PL Jovem, setor da juventude do partido bolsonarista e está fazendo campanha por Flávio no Distrito Federal.

Estudante de Gestão Pública no Instituto Federal de Brasília, Felipe sente que não pode expressar livremente suas opiniões políticas na faculdade – onde predominam visões esquerdistas – e já teve desavenças com amigos devido ao seu posicionamento.

Pesquisas indicam que Lula tem um desempenho superior entre os extremos eleitorais. No levantamento realizado pelo Datafolha em 17 de setembro, o candidato petista obteve 39% das intenções de voto na faixa etária entre 16 e 24 anos contra 29% para Flávio. Outras duas pesquisas mostram empates técnicos: na Quaest de 21 de setembro foi registrado um empate entre ambos com 31%, enquanto a Atlas de 23 de setembro apontou uma ligeira vantagem para Flávio com 30% frente a 31% para Lula.

No eleitorado idoso, a vantagem de Lula é ainda mais significativa. No Datafolha ele alcançou 43%, enquanto Flávio ficou com 33%. A pesquisa da Quaest revela números semelhantes: 42% contra 32%. Já a Atlas apresenta um cenário ainda mais favorável para Lula: com impressionantes 62,5%, enquanto Flávio registra apenas 31,5%.

Tais resultados explicam porquê as campanhas do PT têm se esforçado tanto para mobilizar os idosos nas urnas. O Datafolha revela que somando-se os indecisos aos votos brancos e nulos representa cerca de 11% do público acima dos 60 anos.

“As pesquisas mostram claramente que Lula tem bom desempenho entre os eleitores acima dos 60 anos. É evidente que esse público precisa ser incentivado a comparecer às urnas”, analisa Marco Antônio Carvalho Teixeira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

By Canoas Informa

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