Antiga atleta brasileira lança obra que conecta ciclo menstrual à performance esportiva

O livro “Votre cycle menstruel mérite d’être écouté” (Seu ciclo menstrual merece ser ouvido, em português), da ex-ginasta e pesquisadora Juliana Antero, especialista em Saúde Pública e Ciências do Esporte, traz uma nova perspectiva sobre sintomas frequentemente enfrentados pelas mulheres, como cólicas, fadiga, oscilações de humor e irregularidades nos ciclos menstruais.

Esta obra desafia a aceitação do sofrimento feminino relacionado ao ciclo menstrual, especialmente no contexto do esporte profissional. Juliana destaca a importância de ouvir o corpo como uma maneira de aprimorar tanto a saúde quanto o desempenho das mulheres, seja em competições esportivas ou na vida diária. Através de suas investigações no Instituto Nacional Francês do Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), ela utiliza a variedade das experiências femininas para sugerir uma interação entre ciência e auto-observação.

Cada capítulo é construído com base na narrativa de uma mulher e nos sinais que seu corpo manifesta ao longo do ciclo. “Essa abordagem facilita a interpretação e torna mais leve a vivência de cada fase, contribuindo para o bem-estar, a saúde e o desempenho atlético”, ressalta.

Juliana compartilha sua experiência: “Tudo que escrevi no livro é conhecimento que eu gostaria de ter tido durante minha trajetória como atleta e na minha vida cotidiana”, declarou em entrevista à RFI.

Com sua vasta vivência no alto rendimento esportivo, ela reconhece um ambiente que frequentemente negligenciou os sinais do corpo feminino. “É fundamental que todas as mulheres aprendam a interpretar as mensagens do ciclo menstrual”, enfatiza.

As sugestões apresentadas por Juliana são fundamentadas em evidências científicas. Elas incluem modificações simples no estilo de vida, como alterações nas atividades físicas em termos de tipo, intensidade e horários, além de ajustes na dieta, sono e gerenciamento do estresse.

“Por exemplo, para aquelas dores incômodas durante a menstruação, recomenda-se realizar exercícios que podem ajudar a aliviar essas dores. Também existem alterações alimentares para atenuar sintomas como a compulsão alimentar no final do ciclo, além de orientações para melhorar o sono e lidar com o estresse, fatores que podem interferir na regularidade do ciclo menstrual e na ovulação”, detalha.

À frente do programa Empow’her no Insep, Juliana está envolvida em pesquisas sobre o ciclo menstrual e performance esportiva. Ela trabalhou diretamente com atletas francesas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 e nas Olimpíadas de Inverno Milão-Cortina 2026. Essa experiência prática foi crucial para a criação do livro, conforme relata.

A visão crítica da autora também se origina de sua própria vivência como atleta, quando sentiu falta de informações sobre o ciclo menstrual. Ela acredita que os dados disponíveis atualmente “teriam impactado significativamente sua carreira esportiva”:

“Quando eu era atleta e não menstruava – algo relativamente comum entre atletas de alto desempenho – pensávamos que isso era normal. Porém, isso pode ter consequências sérias para a saúde feminina e o rendimento atlético. Por exemplo, é mais difícil desenvolver músculos sem menstruar”, conta Juliana. Ela menciona que sua produção hormonal insuficiente resultou até mesmo em uma fratura.

A pesquisadora salienta que esse problema poderia ter sido evitado caso houvesse uma observação cuidadosa do ciclo menstrual – no caso dela, muito longos ou ausentes. Durante sua época como atleta profissional, esse tema era considerado um tabu e ela não tinha acesso ao conhecimento científico atual sobre como o ciclo é um indicador vital da saúde feminina: “Eu adoraria ter tido essas informações quando era ginasta”.

Embora tenha havido progressos recentes na pesquisa científica relacionada às mulheres, Juliana aponta que ainda há uma escassez significativa de estudos focados nos corpos femininos. “Um estudo realizado em 2022 revelou que apenas 10% das pesquisas científicas são exclusivamente dedicadas às mulheres; por outro lado, 70% concentram-se apenas nos homens. As hipóteses científicas ainda estão predominantemente baseadas na fisiologia masculina”, observa.

Para ela, prestar atenção ao ciclo menstrual representa uma forma concreta de empoderamento feminino. “Isso implica compreender que nossas funções não são lineares, mas sim cíclicas; é fundamental aprender a utilizar essa ciclicidade para gerenciar melhor nossa saúde e bem-estar”.

No momento, ‘Votre Cycle Menstruel Mérite d’être Écouté’ está acessível exclusivamente em francês. De acordo com Juliana Antero, já existe uma tradução avançada para o chinês sendo desenvolvida juntamente com outras propostas futuras.

Ainda assim, embora deseje ver seu livro traduzido para sua língua nativa, não há previsão concreta para uma versão em português. “As brasileiras têm mostrado um crescente interesse em entender melhor o funcionamento dos seus corpos e melhorar sua saúde”, conclui Juliana Antero.

By Canoas Informa

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