Milhões carregam a bactéria da tuberculose sem terem consciência disso

A tuberculose permanece como uma das principais causas de mortes relacionadas a infecções em todo o mundo, coexistindo silenciosamente com uma parte significativa da população. Estima-se que aproximadamente 25% das pessoas no planeta sejam portadoras da bactéria responsável pela doença.

Na maioria das situações, o microrganismo conhecido como Mycobacterium tuberculosis permanece em estado “dormido”. Esse estado latente não apresenta sintomas, é difícil de detectar e não provoca a doença.

No entanto, essa aparente inatividade pode ser enganosa. Sob certas condições — como um sistema imunológico debilitado —, a bactéria pode reativar-se e causar uma enfermidade que afeta predominantemente os pulmões, mas que também tem potencial para comprometer outros órgãos.

Portanto, a tuberculose não é apenas um desafio para aqueles que adoecem; trata-se de uma infecção amplamente disseminada, representando uma “reserva silenciosa” global que pode ser ativada a qualquer momento.

No ano de 2021, foram contabilizados cerca de 9,4 milhões de novos diagnósticos da tuberculose e aproximadamente 1,35 milhão de óbitos decorrentes dessa patologia. Embora esses números sejam impressionantes, eles não contam toda a história. O essencial reside na forma como estão distribuídos.

A tuberculose apresenta diferentes impactos ao redor do mundo. Em várias nações desenvolvidas, sua incidência diminuiu de maneira constante nas últimas décadas. Nesses locais, é rara, geralmente diagnosticada precocemente e com tratamentos acessíveis.

Em contrapartida, regiões da África, Ásia e América Latina ainda enfrentam essa realidade diariamente. Fatores como superlotação, pobreza e falta de acesso adequado aos serviços de saúde ajudam na propagação e evolução da doença.

Assim sendo, a tuberculose se revela não apenas como uma infecção: ela é um reflexo das desigualdades globais existentes.

É importante reconhecer que houve avanços significativos ao longo do tempo. Desde os anos 90, tanto a incidência quanto as taxas de mortalidade por tuberculose caíram em nível global. A ampliação dos programas de controle e o acesso a tratamentos eficazes foram fundamentais para essas melhorias. Contudo, o progresso não está ocorrendo na velocidade necessária.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou iniciativas ambiciosas através da estratégia “End TB”, estabelecendo metas intermediárias para 2020. Essas metas incluíam uma redução da incidência em 20% e da mortalidade em 35% em relação aos números de 2015. No entanto, essas metas não foram alcançadas: entre 2015 e 2020, a incidência global caiu apenas 6,3% enquanto a mortalidade teve uma redução de 11,9%. Estamos avançando, mas o ritmo é insuficiente.

Caso essa lentidão persista, será bastante desafiador atingir os objetivos propostos para 2035.

Além disso, o progresso tem sido desigual entre as diversas nações. Alguns países experimentaram avanços notáveis devido à implementação de estratégias inovadoras como a busca ativa por casos e uso de tecnologias diagnósticas mais ágeis ou programas sociais que garantem que pacientes completem seus tratamentos. Contudo, esses casos ainda são exceções.

Ainda há disparidades entre diferentes grupos populacionais. Dados indicam que crianças têm usufruído de progressos mais rápidos em comparação aos idosos, que apresentam maior risco de morte por tuberculose.

Essa situação é particularmente relevante considerando o envelhecimento acelerado da população mundial; se ações adequadas não forem tomadas para controle dessa doença entre os idosos, esse grupo pode se tornar um foco crescente da enfermidade.

Um dos desafios adicionais decorre do fato de que a tuberculose está relacionada não apenas à bactéria em si, mas também a fatores que elevam o risco do seu desenvolvimento. Entre estes fatores estão o tabagismo, alcoolismo e diabetes. Recentes estimativas sugerem que uma fração considerável das mortes por tuberculose poderia ser evitada caso esses fatores fossem reduzidos. Isso enfatiza a necessidade de abordar essa doença com uma perspectiva abrangente que una intervenções médicas com ações sociais e políticas públicas voltadas à saúde.

Outro problema alarmante é o surgimento da tuberculose resistente a antibióticos. O tratamento tradicional é longo e complexo e requer adesão rigorosa por parte dos pacientes. Quando esses tratamentos são interrompidos ou quando os sistemas de saúde falham em garantir acesso contínuo aos medicamentos necessários, cepas resistentes podem surgir.

Tais variedades resistentes são muito mais difíceis de tratar: demandam terapias mais longas e custosas com efeitos colaterais significativos. E o mais preocupante é que já estão presentes em diversas regiões do planeta.

Além dos números frios apresentados pela tuberculose, ela nos remete a questões mais profundas: trata-se de desigualdade social e da insuficiência dos sistemas de saúde para atender aqueles que realmente necessitam; reflete também condições precárias de vida que favorecem a transmissão de doenças passíveis de prevenção. Porém também nos oferece oportunidades.

A tuberculose é prevenível; possui métodos diagnósticos eficazes e tratamentos disponíveis. Temos conhecimento sobre as estratégias necessárias para mitigar seu impacto; o verdadeiro obstáculo reside na implementação equitativa desse conhecimento em todas as comunidades.

Para diminuir seu impacto na América Latina — especialmente entre as populações mais vulneráveis — é imprescindível uma resposta global coordenada e ambiciosa. Doenças consideradas distantes muitas vezes são aquelas que mais nos surpreendem quando retornam com força.(Luis Felipe Reyes/The Conversation)

By Canoas Informa

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