Uma pesquisadora brasileira desenvolveu uma inovadora tecnologia que permite identificar, em questão de segundos, se um tecido é saudável ou canceroso durante intervenções cirúrgicas. A química Lívia Éberlin criou um dispositivo em formato de “caneta” que analisa as moléculas do tecido em tempo real, auxiliando os médicos na tomada de decisões mais precisas no combate ao câncer.
A iniciativa teve início quando Lívia começou a acompanhar procedimentos cirúrgicos e notou as limitações dos métodos utilizados para a identificação de tumores. “Fiquei bastante surpresa ao perceber que os processos empregados eram extremamente antigos e apresentavam erros, além de serem demorados”, comentou.
Com essa percepção, ela decidiu desenvolver uma ferramenta que pudesse ser utilizada diretamente no ambiente cirúrgico, sem a necessidade de exames prolongados.
“Ao observar as cirurgias, quis criar uma técnica, um dispositivo que pudesse ser manuseado pelos cirurgiões. Eles poderiam aplicá-lo no tecido para determinar se era normal ou canceroso e realizar a análise molecular em tempo real, dentro do paciente, antes mesmo da remoção do tecido”, explicou.
O equipamento criado por Lívia possui um design simples, semelhante ao de uma caneta comum, mas realiza análises moleculares. “Ela não escreve; é uma caneta que lê”, esclareceu.
No decorrer do procedimento cirúrgico, o médico posiciona a ponta da caneta sobre o tecido. Uma gota de água é liberada para extrair as moléculas, que são imediatamente analisadas.
<p“Quando o cirurgião utiliza a caneta e toca o tecido com ela, ativa-se um pedal que libera uma gotinha de água na ponta. Essa água é responsável por extrair as moléculas do tecido”, relatou.
“Assim como usamos água para retirar as moléculas do café ao fazer uma bebida, utilizamos uma gota d’água para extrair as moléculas do tecido humano”, completou.
Os dados obtidos passam por um processamento com inteligência artificial, que compara os padrões moleculares e determina se o tecido analisado é canceroso ou não.
“Essa é a razão pela qual incorporamos inteligência artificial. Usamos algoritmos para examinar essas informações moleculares e fornecer uma resposta instantânea sobre a natureza do tecido com base nesse perfil molecular”, destacou.
A trajetória de Lívia vai além das inovações tecnológicas. Ao se mudar para os Estados Unidos, ela enfrentou desafios como imigrante: “Havia um certo subestimar à minha capacidade como mulher e latina”, revelou.
A pesquisadora também compartilhou sua experiência de não pertencimento em ambientes predominantemente masculinos: “Olhar para as paredes do departamento e ver apenas homens me fazia questionar se realmente pertencia àquele espaço”, comentou.
Diante desse cenário desafiador, Lívia decidiu focar em seu desempenho acadêmico e profissional como estratégia para superar as dificuldades.
“Minha abordagem foi realizar o melhor trabalho possível e conquistar as melhores notas”, afirmou com determinação.
Embora o projeto possuísse grande potencial inovador, inicialmente enfrentou ceticismo por parte de alguns profissionais.
“Muitas pessoas acreditavam que não funcionaria e consideravam a ideia simplista demais”, lembrou Lívia.
A mudança na percepção sobre o dispositivo ocorreu à medida que os resultados começaram a surgir: após várias iterações e testes, a eficácia da caneta foi sendo comprovada.
Atualmente, essa tecnologia já foi empregada em mais de 400 operações nos Estados Unidos, abrangendo casos relacionados ao câncer de mama, pulmão, cérebro, ovário e pâncreas. Um dos centros onde essa inovação está sendo testada é o MD Anderson Cancer Center, considerado referência mundial no tratamento oncológico. No Brasil, o equipamento também está passando por testes experimentais em instituições como o Hospital Albert Einstein e a Unicamp.
