A mitomania: a ciência desvenda a verdade por trás da mentira compulsiva

Pesquisas indicam que a maioria das pessoas tende a mentir pouco ou quase nada em seu cotidiano, enquanto um pequeno grupo é responsável por uma quantidade significativa das inverdades. Essa conclusão foi obtida em estudos sobre comportamento humano, como os realizados por acadêmicos da Texas Woman’s University e da Angelo State University, e divulgados na revista Current Psychology.

Em certos casos, no entanto, a mentira deixa de ser um ato isolado e se transforma em um comportamento habitual, persistente e descontrolado — um fenômeno que especialistas chamam de mentira compulsiva ou mitomania.

Embora o conceito de mitomania exista há mais de cem anos, ele não é reconhecido formalmente nos manuais psiquiátricos mais utilizados. Entretanto, tanto a literatura científica quanto a prática clínica validam esse comportamento como algo que pode gerar sofrimento psicológico e impactar negativamente as relações interpessoais.

– Distinção entre mentira comum e compulsiva: A diferença fundamental entre mentir ocasionalmente e ter um padrão patológico reside na intenção e no controle sobre o ato de mentir.

O psicanalista Christian Dunker, que é professor titular em psicanálise e psicopatologia no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, esclarece que a mentira comum é uma ação intencional.

“Mentir envolve um desejo deliberado de enganar outra pessoa; possui uma finalidade clara”, ressalta.

No caso da mentira compulsiva, essa intenção se esvai.

“A existência de uma patologia relacionada à mentira sugere uma forma de coerção. O indivíduo simplesmente não consegue evitar mentir”, detalha Dunker.

A partir desse ponto, as inverdades deixam de ser estratégias para se tornarem ações repetidas, frequentemente sem nenhum benefício evidente.

A psicóloga clínica Marilene Kehdi complementa que enquanto a mentira comum geralmente busca algum objetivo — como escapar de punições ou obter vantagens — a mitomania é caracterizada pela frequência excessiva de mentiras desnecessárias, muitas vezes sem justificativa clara.

– Quando mentir se torna problemático: Embora a ciência ainda não classifique a mitomania como um transtorno isolado, pesquisas recentes têm se esforçado para entender melhor esse comportamento.

O médico psiquiatra Paulo Rogério Aguiar observa que a mentira compulsiva costuma ser um indicativo de outros problemas psicológicos, ao invés de ser considerada um diagnóstico autônomo.

“A mentira compulsiva é geralmente um sintoma associado a condições subjacentes mais sérias; atua como um sinal para investigar questões mais profundas”, destaca.

Dentre as propostas mais aceitas está a ideia de que a mentira patológica envolve um padrão duradouro e abrangente, ligado ao sofrimento emocional e prejuízo nas interações sociais — critérios semelhantes aos que definem outros transtornos mentais.

Estudos também revelam que o ato de mentir segue padrões ao longo da vida: é mais frequente na infância e adolescência, quando está relacionado ao desenvolvimento cognitivo e social, tendendo a diminuir na fase adulta.

Caso essa diminuição não ocorra — ou se os níveis elevados de mentira persistirem ao longo do tempo — isso pode ser considerado atípico e aumentar o risco de problemas futuros.

Uma pesquisa longitudinal publicada no Journal of Adolescence aponta que aproximadamente 5% das pessoas mantêm altos índices de mentiras desde a adolescência até a vida adulta — esse grupo apresenta maior impulsividade, comportamentos manipuladores e maior probabilidade de se envolver em atividades ilícitas ou consumo abusivo de substâncias.

Além disso, frequentemente a mentira compulsiva está ligada a outros transtornos mentais, incluindo aqueles relacionados à personalidade (como narcisismo, borderline e antissocial), além de quadros depressivos e ansiosos.

– Causas da mentira compulsiva: Não há uma única explicação para a mitomania. Este comportamento geralmente resulta da interação entre fatores psicológicos, sociais e biológicos.

A baixa autoestima, o desejo intenso por atenção e dificuldades em lidar com frustrações figuram entre os principais fatores mencionados. Pesquisas sugerem ainda que traços como impulsividade e busca por recompensas podem reforçar o hábito de mentir, especialmente quando as inverdades resultam em ganhos imediatos como atenção ou alívio emocional.

A partir da perspectiva psicanalítica, mentir pode servir como um meio para sustentar uma identidade construída pelo indivíduo.

“A mentira representa uma versão das nossas fantasias; aquilo que aspiramos ser. Ela pode transformar-se em uma narrativa ficcional que domina o sujeito”, afirma Dunker.

Em algumas situações, o indivíduo começa a elaborar uma narrativa sobre si mesmo, assumindo o papel de um personagem fictício.

“Existem casos onde o sujeito inventa uma narrativa imaginária para si mesmo”, explica o psicanalista.

– A linha tênue entre verdade e invenção: Um dos aspectos mais desafiadores da mentira compulsiva diz respeito à sua relação com a realidade.

Diferentemente dos quadros delirantes em que há perda do contato com o real, quem mente compulsivamente geralmente tem consciência do ato. No entanto, essa linha divisória pode tornar-se nebulosa com o passar do tempo.

“Há uma área onde fato, crença e fantasia se misturam. Às vezes o próprio indivíduo começa a duvidar do que é verdade”, esclarece Dunker.

A repetição incessante das histórias dificulta distinguir entre aquilo que foi inventado e os eventos reais ocorridos.

– Consequências na vida pessoal e social: Os danos causados pela mentira vão além da simples desmascaramento.

Pessoas com tendência à mentira compulsiva enfrentam perda de credibilidade, rompimento dos laços afetivos e isolamento social. Podem também estar sob maior risco para desenvolver ansiedade e depressão.

No extremo dessa situação, esse comportamento pode levar à construção de uma “vida paralela”, sustentada por uma rede complexa de histórias inventadas.

“O sujeito vai transitar entre diferentes mentiras até construir toda uma rede; às vezes até mesmo uma vida alternativa”, conclui Dunker.

– Existe tratamento? Sim, mas este deve ser direcionado conforme cada caso individual. Como a mitomania frequentemente está associada a outros transtornos psicológicos, os tratamentos podem envolver tanto acompanhamento psicológico quanto psiquiátrico quando necessário.

A avaliação para diagnóstico necessita ser cuidadosa devido à importância em diferenciar entre mentiras ocasionais e padrões compulsivos persistentes.

By Canoas Informa

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