Pesquisadores estão explorando uma abordagem inovadora para enfrentar doenças cardiovasculares: um tratamento de edição genética que promete ser uma solução definitiva para o colesterol elevado. Embora a pesquisa tenha sido realizada em um número limitado de indivíduos, as técnicas desenvolvidas por duas empresas indicam que a desativação de determinados genes pode diminuir significativamente o colesterol que se acumula nas artérias, aumentando as perspectivas de prevenir ataques cardíacos sem a necessidade de medicamentos.
“As pessoas buscam soluções duradouras, e não alternativas temporárias”, afirma Luke Laffin, cardiologista da Cleveland Clinic. Ele, que foi coautor de um estudo encorajador publicado no The New England Journal of Medicine, relata ter recebido inúmeras perguntas sobre como se inscrever para o próximo ensaio clínico.
O colesterol “ruim”, conhecido como LDL, é responsável pela formação de placas nas artérias e é um dos principais fatores associados ao risco de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais (AVC). As doenças cardíacas são a principal causa de morte nos Estados Unidos, no Brasil e em diversas partes do mundo.
Conforme indicado pela Associação Americana do Coração (AHA), o fígado sintetiza o colesterol necessário ao organismo, sendo que os genes influenciam sua regulação. Algumas pessoas herdam variantes genéticas que provocam níveis excessivamente altos desse lipídio.
Kiran Musunuru, cardiologista da Universidade da Pensilvânia, revelou anos atrás que uma mutação pode inibir um gene denominado ANGPTL3, resultando na diminuição dos níveis de LDL e também dos triglicerídeos. Pesquisadores do UT Southwestern Medical Center descobriram que alguns indivíduos apresentam níveis extremamente baixos de LDL devido à desativação funcional do gene PCSK9.
“Estamos observando um experimento natural que demonstra as consequências reais da modificação genética”, explica Steven Nissen, da Cleveland Clinic. Ele, junto com Laffin, coordenou um estudo sobre o ANGPTL3 financiado pela empresa suíça CRISPR Therapeutics.
Atualmente existem medicamentos injetáveis que bloqueiam proteínas geradas pelos genes PCSK9 e ANGPTL3 no fígado, facilitando a remoção do colesterol pelo organismo. A nova pesquisa utiliza a técnica CRISPR para desativar um desses genes.
No decorrer de um estudo, 15 adultos receberam uma infusão única de pequenas partículas contendo a ferramenta CRISPR direcionada ao fígado, onde o gene ANGPTL3 foi desativado nas células hepáticas. Após duas semanas, os participantes que receberam a dose mais elevada apresentaram uma redução de 50% nos níveis de LDL e triglicerídeos, conforme relatado por Laffin e Nissen em novembro.
A Verve Therapeutics, uma subsidiária da Eli Lilly localizada em Boston, informou que sua infusão focada no PCSK9 também reduziu os níveis de colesterol LDL em proporções similares durante outro estudo pequeno.
Joseph Wu, da Universidade Stanford e que não participou das pesquisas mencionadas, destaca questões relevantes sobre segurança. As terapias baseadas na técnica CRISPR ainda não foram amplamente aplicadas para garantir conhecimento suficiente acerca dos efeitos colaterais a longo prazo. Além disso, as partículas transportadoras da ferramenta genética podem causar irritações ou inflamações no fígado. Outro ponto de interrogação é se a edição genética atinge apenas os alvos desejados. Por isso, os estudos atuais estão focados em indivíduos com altíssimo risco cardiovascular.
A AHA recomenda uma série de fatores para promover uma saúde cardíaca ideal. Muitos deles estão associados ao estilo de vida adotado. É fundamental seguir uma dieta equilibrada e rica em frutas, vegetais, grãos integrais e gorduras saudáveis presentes em alimentos como nozes. O consumo excessivo de gorduras saturadas pode elevar os níveis de colesterol.
Além disso, manter-se fisicamente ativo é essencial; a prática regular de exercícios pode aumentar o HDL e reduzir triglicerídeos. É importante também preservar um peso saudável e evitar fumar. Garantir uma boa qualidade do sono é igualmente relevante.
A pressão arterial deve ser controlada com valores abaixo de 120 por 80 mmHg. A diabetes também pode afetar negativamente a saúde do coração; portanto, é crucial monitorar os níveis glicêmicos.
Os especialistas recomendam manter os níveis de LDL em torno de 100 mg/dL; no entanto, quando surgem problemas relacionados ao colesterol elevado ou doenças cardíacas já diagnosticadas, as diretrizes sugerem que esse valor seja reduzido para pelo menos 70 mg/dL.
As estatinas são medicamentos eficazes na diminuição da produção do colesterol pelo fígado e contribuem para a redução dos níveis de LDL. Existem também outras opções disponíveis no mercado como drogas injetáveis. Essas informações foram divulgadas pela agência AP.
