Sinais de rádio de exoplaneta são captados pela primeira vez após anos de pesquisa intensiva

Desde o começo da década de 1990, a comunidade científica tem conhecimento da existência de planetas que orbitam estrelas fora do nosso Sistema Solar, conhecidos como exoplanetas. Desde então, radiotelescópios têm sido utilizados para investigar o cosmos em busca de sinais provenientes desses mundos distantes, mas até agora não haviam conseguido distinguir as emissões de um planeta daquelas emitidas por sua estrela. Contudo, esse silêncio parece ter sido quebrado.

Uma equipe global sob a liderança de Kevin Ortiz Ceballos, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, anunciou o que considera ser a primeira detecção de emissões de rádio diretamente relacionadas a um exoplaneta. O corpo celeste em questão é Beta Pictoris b (β Pictoris b), um gigante gasoso descoberto em 2008, situado a mais de 63 anos-luz da Terra.

Não se trata de uma mensagem extraterrestre

Antes que a expectativa por um possível contato com civilizações alienígenas se intensifique, é importante esclarecer que essa detecção não implica comunicação com seres inteligentes. O sinal detectado está ligado a fenômenos aurorais, semelhantes aos que iluminam os céus polares do nosso planeta e que também são responsáveis pelas rajadas de rádio emitidas por Júpiter.

Parece que algo análogo ocorre em β Pictoris b, embora com a influência de um campo magnético extremamente forte. Esse campo poderia direcionar partículas energéticas para as camadas superiores da atmosfera do planeta, onde suas interações gerariam as emissões aurorais observadas pelos radiotelescópios.

Descoberta das radioauroras por meio do MeerKAT

A identificação deste fenômeno se baseou em observações feitas pelo conjunto de radiotelescópios MeerKAT, localizado na África do Sul. Durante quatro sessões distintas entre 2025 e 2026, os astrônomos registraram uma emissão contínua e rajadas breves que se repetiam. Essas emissões apresentavam forte polarização circular, evidenciando que as ondas de rádio giravam em espiral enquanto se propagavam — um padrão típico das emissões aurorais e que sugere uma origem similar.

A explicação para essas emissões estaria relacionada à instabilidade máser de ciclotron de elétrons (ECMI), um mecanismo já bem documentado pelos cientistas para compreender as radioauroras em planetas do nosso Sistema Solar, como Júpiter.

No entanto, persistia a dúvida: como determinar se o sinal provém do planeta ou da estrela ao seu redor? A resposta surgiu através do uso de quasares — objetos extremamente distantes que serviram como referência para melhorar as medições.

Com base nessa metodologia, foi possível identificar com precisão as emissões e confirmar β Pictoris b como sua origem. Isso permitiu descartar tanto sua estrela quanto o exoplaneta vizinho β Pictoris c, conforme relatado por fontes especializadas.

Contudo, identificar a origem das emissões foi apenas o primeiro passo; as ondas de rádio também possibilitaram medir a intensidade do campo magnético do planeta, atuando quase como um magnetômetro à distância.

O motivo pelo qual os sinais foram detectados desta vez

A busca por essas emissões vem sendo realizada há anos sem sucesso significativo até agora. Em 2022, uma campanha usando o radiotelescópio Very Large Array não obteve resultados positivos e outra tentativa em 2024 focada especificamente em β Pictoris b também falhou. Contudo, houve uma diferença crucial: enquanto o último estudo investigou frequências variando entre 250 e 500 megahertz, as novas observações realizadas com o MeerKAT cobriram uma faixa mais elevada — entre 0,85 e 3,5 gigahertz.

Além disso, o planeta exibe características que o tornam um alvo particularmente interessante para estudo. Com uma massa entre 10 e 12 vezes maior que a de Júpiter e um campo magnético extremamente forte, ele completa uma rotação ao redor de si mesmo em apenas oito ou nove horas. Essa rápida rotação pode contribuir para intensificar suas emissões aurorais. A distância aparente entre ele e sua estrela também facilitou aos pesquisadores localizarem precisamente a origem dos sinais.

Ainda segundo especialistas na área, foram consideradas outras possíveis fontes energéticas como vento estelar ou interações com uma lua hipotética — semelhante à relação existente entre Júpiter e sua lua. No entanto, os cálculos demonstraram que nenhum desses mecanismos isoladamente seria capaz de fornecer energia suficiente para explicar a intensidade do sinal observado.

By Canoas Informa

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