A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) revisou suas diretrizes para o tratamento clínico do diabetes no Brasil, introduzindo uma mudança significativa: a partir de agora, pacientes diagnosticados com diabetes tipo 2, que é a forma mais prevalente da doença, deverão também tratar a obesidade simultaneamente. Anteriormente, o manejo da obesidade não era considerado obrigatório para esses casos.
Marcello Bertoluci, coordenador das Diretrizes da SBD, ressaltou que a abordagem terapêutica agora se expandiu além do controle da glicose. “Estamos focando não apenas na glicemia, mas também na gestão do peso e nos riscos associados aos rins e ao coração. Um estilo de vida saudável é essencial; no entanto, nossa intenção é incluir medicamentos que ajudem tanto no controle da obesidade quanto do diabetes, além de prevenir complicações adicionais como infarto, insuficiência cardíaca e doenças renais relacionadas ao diabetes”, afirmou.
Dentre os medicamentos recomendados estão os agonistas do GLP-1, como o Ozempic, Wegovy e Mounjaro. “Estudos demonstram que esses fármacos são extremamente eficazes para induzir a remissão em pacientes que apresentam sobrepeso ou alterações metabólicas antes mesmo do diagnóstico de diabetes tipo 2. Eles ajudam a proteger contra a progressão da doença renal e a reduzir o risco de infarto”, explicou Bertoluci.
O especialista enfatizou ainda que o enfrentamento do excesso de gordura corporal deve ser uma preocupação constante ao longo da vida. “Nos casos em que o paciente já apresenta complicações mais severas do diabetes, como lesões nos órgãos afetados – incluindo coração e rins –, outros medicamentos, como os inibidores do SGLT2, devem ser adicionados ao tratamento para conter a evolução da doença”, completou.
Os rins, pâncreas, artérias coronárias e cerebrais, fígado e coração estão entre os órgãos mais impactados pela condição. As complicações mais comuns incluem insuficiência cardíaca, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), perda da função renal e progressão do diabetes tipo 2 que pode levar à necessidade de insulina.
O diabetes é uma condição crônica caracterizada pela resistência à insulina associada a uma capacidade variável do pâncreas em produzir esse hormônio. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 14% da população adulta mundial vive com essa enfermidade, totalizando cerca de 828 milhões de pessoas. No Brasil, essa taxa atinge 12,9%, correspondendo a aproximadamente 19,9 milhões de indivíduos com base nos dados do Censo Demográfico de 2022 realizado pelo IBGE.
Os dois tipos mais comuns de diabetes são os tipos 1 e 2. O tipo 1 é uma doença autoimune em que o corpo produz anticorpos que destroem as células produtoras de insulina no pâncreas, resultando em uma deficiência grave dessa substância. Em contraste, o tipo 2 envolve tanto fatores genéticos quanto a obesidade que provocam resistência à insulina e eventual deficiência evitável. Ambas as formas podem ocasionar complicações crônicas que são controláveis por meio da monitorização da glicemia e dos fatores de risco associados; entre eles estão obesidade, hipertensão e colesterol elevado.
A pesquisa Vigitel divulgada recentemente pelo Ministério da Saúde revelou que 12,9% dos adultos brasileiros foram diagnosticados com diabetes em 2024. Este número representa um aumento impressionante de 134,5% em relação ao primeiro levantamento realizado quase duas décadas atrás em 2006, quando a prevalência era apenas de 5,5%.
Gestantes
Uma nova diretriz apresentada pela SBD inclui recomendações sobre contracepção para mulheres cuja hemoglobina glicada ultrapasse 9. Lenita Zajdenverg, coordenadora do Departamento de Diabetes Gestacional da SBD, destacou que um em cada seis nascidos vivos tem mães com hiperglicemia durante a gravidez; isso aumenta consideravelmente o risco de malformações fetais.
“A decisão sobre ter filhos deve ser tomada pela mulher; porém aquelas com hemoglobina glicada acima desse limite que estão considerando engravidar devem ser alertadas sobre os elevados riscos de malformações e outras complicações durante a gestação”, comentou Zajdenverg. Nestes casos específicos, recomenda-se adiar a gravidez até que os níveis estejam abaixo de 6.
Além disso, mulheres com diabetes tipo 1 que ainda não estão grávidas mas têm dificuldades em controlar sua glicemia devem considerar o uso de sistemas automatizados para infusão de insulina. “Há evidências indicando que esses sistemas melhoram os resultados gestacionais ao otimizar o controle glicêmico”, acrescentou ela.
Zajdenverg também mencionou que mulheres com diabetes tipo 2 utilizando agonistas do GLP-1 precisam mudar para medicamentos mais seguros antes da gestação. “Estudos observacionais indicam que o uso desses agonistas no primeiro trimestre não está associado a um aumento no risco de malformações; no entanto, esses medicamentos ainda não têm autorização para uso durante a gravidez e devem ser substituídos por opções seguras como insulina”, concluiu.
