Em um marco inédito, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou suas diretrizes sobre o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes, abrangendo a faixa etária de 0 a 19 anos. O documento aborda a utilização de intervenções médicas, incluindo medicamentos (como as canetas emagrecedoras) e procedimentos cirúrgicos, que podem ser considerados a partir dos 10 anos quando necessário, embora não especifique quais tratamentos são adequados para cada perfil.
A OMS destaca que a administração de medicamentos deve ser feita somente quando um programa supervisionado de mudança de estilo de vida não apresentar os resultados esperados. Já a cirurgia bariátrica é recomendada com restrições ainda mais rigorosas, podendo ser considerada apenas para adolescentes com obesidade severa e somente após os 10 anos.
Para as crianças na faixa etária de 0 a 9 anos, a recomendação é que sejam aplicadas “intervenções estruturadas”, envolvendo mudanças na dieta, aumento da atividade física e ajustes comportamentais. A abordagem sugerida deve ser multidisciplinar e pode incluir até “intervenções digitais”, como videogames que promovam o movimento corporal, desde que realizadas sob supervisão dos pais ou responsáveis.
“A essência dessas diretrizes é clara: jovens com obesidade necessitam de acesso a cuidados eficientes, fundamentados em evidências e centrados no indivíduo. O tamanho desse desafio é expressivo”, afirmou Luz Maria de Rejil, diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, durante uma coletiva à imprensa.
Embora as diretrizes não abordem especificamente os análogos de GLP-1 (as canetas emagrecedoras), esses medicamentos estão listados entre outras opções terapêuticas que auxiliam na perda de peso, como aquelas que atuam na absorção intestinal de gordura e no controle glicêmico.
A respeito dos análogos ao GLP-1, ainda pairam incertezas sobre seu uso adequado em diferentes grupos etários. Existem questionamentos sobre a duração do tratamento e seus efeitos colaterais, assim como sobre a manutenção da dosagem após a redução de peso. A OMS reconhece que estabelecer um tempo ideal para o tratamento é desafiador mesmo em adultos, sendo ainda mais complexo para crianças. A organização continua monitorando novos estudos para atualizar suas recomendações conforme necessário.
Rejil também enfatizou que o tratamento clínico não é o único caminho diante do aumento alarmante dos casos de obesidade infantil. Em 2014, cerca de 170 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos apresentavam obesidade globalmente. Desses, 70 milhões estavam na faixa etária de 5 a 9 anos, enquanto mais de 100 milhões eram adolescentes entre 10 e 19 anos. Diante desses números significativos, segundo a especialista, são necessárias ações colaborativas envolvendo diversos setores da sociedade.
Foco no peso
A introdução deste guia foi vista com bons olhos por Ricardo Cohen, coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Oswaldo Cruz em São Paulo e ex-presidente da Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade e Distúrbios Metabólicos (IFSO). Ele acredita que há um reconhecimento importante sobre a necessidade de abordar a obesidade na juventude; no entanto, considera que os critérios para definir quem deve receber tratamento não estão atualizados. Para ele, o documento se concentra excessivamente no peso corporal em vez de considerar outros indicadores relevantes.
Cohen observa que desde janeiro de 2025, especialistas têm defendido uma abordagem que prioriza o tratamento baseado na avaliação clínica por meio de sinais e sintomas (que podem variar em até 18 tipos para adultos e 13 variáveis para crianças), ao invés do uso exclusivo do Índice de Massa Corporal (IMC), como mencionado nas diretrizes da OMS. Essa nova orientação foi publicada no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology com contribuição dele.
Além disso, ele menciona que o acesso ao tratamento também pode influenciar qual abordagem deve ser escolhida.
Adultos
No final do ano passado, a OMS já havia tomado medidas em relação aos medicamentos destinados à perda de peso para adultos. Naquele momento, foi destacado que tais prescrições deveriam estar integradas “a uma abordagem abrangente que incorpore dietas saudáveis, prática regular de exercícios físicos e suporte profissional”.
A recomendação incluiu o uso desses medicamentos para adultos em geral — exceto grávidas — no tratamento da obesidade. No entanto, essa entidade levantou preocupações sobre o uso continuado das mesmas medicações devido à escassez de dados sobre sua eficácia e segurança ao longo prazo.





