O tema da menstruação voltou a ganhar destaque nas plataformas sociais, impulsionado por uma nova abordagem de saúde denominada “sincronização com o ciclo”. Essa prática consiste em ajustar a alimentação e os exercícios físicos de acordo com as diferentes fases do ciclo menstrual. Por exemplo, durante a primeira fase, é sugerido que se realizem atividades leves, como ioga, ou que se aumente a ingestão de alimentos fermentados.
Influenciadores têm promovido essa sincronização como uma alternativa mais natural para que as mulheres lidem com sintomas indesejados, como cólicas menstruais, além de favorecer uma maior conexão com seus corpos. Mas como essa prática funciona realmente? Existe respaldo científico para essas afirmações?
Ciclo Menstrual
A cada ciclo menstrual, que ocorre entre 28 e 35 dias, o corpo expulsa o revestimento uterino em preparação para uma possível gravidez. O sangramento representa apenas uma parte desse processo, que pode ser dividido em três fases principais:
- Fase folicular: nessa etapa, um hormônio chamado hormônio folículo-estimulante é liberado para auxiliar no crescimento dos folículos no útero.
- Ovulação: durante esta fase, o ovário libera um óvulo maduro que pode ser fertilizado ou não.
- Fase lútea: aqui, o corpo produz progesterona, um hormônio que espessura o revestimento do útero para se preparar para a gravidez. Se não ocorrer fertilização do óvulo, o útero eliminará seu revestimento e reiniciará o ciclo.
As variações nos níveis hormonais ao longo do ciclo podem resultar em sintomas como fadiga, cólicas, inchaço, alterações de humor e oscilações no apetite.
Os defensores da sincronização com o ciclo afirmam que essa prática ajuda as mulheres a gerenciar os desconfortos menstruais e a atender às suas necessidades energéticas variáveis durante esse período. Contudo, algumas alegações frequentemente se contradizem. Por exemplo, enquanto alguns recomendam o consumo de alimentos fermentados e vegetais frescos na fase folicular, outros sugerem proteínas magras e grãos integrais.
No campo dos exercícios físicos também há divergências. Há quem defenda treinos aeróbicos intensos na fase folicular; por outro lado, existem recomendações para atividades como natação ou ciclismo como alternativas mais eficazes para aliviar os sintomas menstruais.
Contudo, poucas evidências sustentam essas recomendações. Revisões sistemáticas que analisaram a literatura existente não encontraram comprovações de que realizar exercícios em certas fases do ciclo menstrual melhore aspectos como desenvolvimento muscular ou desempenho físico. Isso se aplica tanto ao treinamento de resistência quanto aos exercícios aeróbicos.
Pior ainda, parece que essa sincronização não diminui o risco de lesões musculares. Embora algumas pesquisas indiquem flutuações na função imunológica ao longo do ciclo menstrual, uma revisão sistemática concluiu que essas variações provavelmente não impactam o exercício físico.
No entanto, estudos indicam que atletas do sexo feminino podem apresentar menor motivação ou autoconfiança para praticar esportes no final da fase lútea. Elas também tendem a perceber um desempenho inferior no início e no fim da menstruação devido a sintomas desconfortáveis como cólicas e cansaço.
Pesquisas sugerem ainda que determinadas formas de exercício — incluindo musculação e atividades relaxantes — podem ajudar a aliviar as cólicas menstruais.
A relação entre nutrição e as diferentes fases do ciclo menstrual é ainda menos estudada. Um estudo realizado em 2024 apontou que mulheres podem sentir um aumento no apetite durante a fase lútea em comparação à fase folicular; isso poderia ser atribuído ao maior gasto energético do corpo nessa fase preparatória para uma possível gravidez.
Entretanto, uma revisão sistemática não encontrou evidências conclusivas sobre mudanças na dieta contribuindo para a redução de sintomas como cólicas ou inchaço.
Diante disso, os estudos existentes sobre as interações entre dieta, exercício e as diversas fases menstruais apresentaram resultados bastante variados. Além disso, há muitas lacunas na pesquisa atual quanto aos mecanismos envolvidos na sincronização com o ciclo e quais benefícios ela poderia trazer realmente.
Portanto, para aquelas que desejam controlar os sintomas menstruais, a melhor estratégia é ter paciência consigo mesmas e prestar atenção aos sinais do corpo. Por exemplo, se você teve uma noite difícil devido às cólicas noturnas, não há necessidade de realizar um treino intenso pela manhã; uma caminhada leve pode ser mais apropriada. E caso sinta mais fome próximo ao fim da menstruação — na fase lútea — não hesite em ajustar sua alimentação conforme necessário.
Ainda não existe consenso sobre a eficácia da sincronização com o ciclo menstrual. No entanto, pequenas mudanças no estilo de vida podem contribuir para tornar esses dias mensais mais suportáveis. (Emmalee Ford – Professora-adjunta de saúde sexual e reprodutiva na Universidade de Sydney)
