Viajar é comumente relacionado a momentos de lazer, descanso e prazer. Contudo, nas últimas décadas, pesquisas em campos como psicologia, neurociência e saúde pública têm revelado que romper com a rotina e explorar novos lugares pode trazer benefícios significativos para a saúde mental e física, muitos dos quais podem ser duradouros.
James Petrick, professor associado no departamento de pesquisa Arch H. Aplin III ’80 da Texas A&M, afirma que viajar pode não apenas aumentar a produtividade e reduzir o estresse, mas também fortalecer a saúde do coração.
“Não se trata apenas de criar memórias ou buscar felicidade”, observa Petrick. “Nossas investigações demonstram que viajar fortalece nossos relacionamentos e promove um aprendizado superior ao que se teria na ausência de viagens, além de contribuir para uma melhor saúde.”
Um estudo recente conduzido por Petrick e sua equipe na Universidade Texas A&M evidenciou que as viagens podem ter um impacto positivo na saúde cardiovascular. A pesquisa acompanhou 20 estudantes durante um cruzeiro, utilizando relógios inteligentes equipados com um aplicativo para monitorar sua saúde, incluindo batimentos cardíacos e atividades físicas.
“O que descobrimos é que a experiência de viajar assemelha-se ao treinamento de atletas: você realiza exercícios intensos em curtos intervalos, permitindo que seu coração descanse entre eles. As férias proporcionam um efeito semelhante: nossos corações reagem a novas experiências emocionantes e depois relaxam durante os momentos de descanso”, explica Petrick. “É assim que as férias contribuem para a saúde do coração.”
As conclusões ainda indicam que férias mais prolongadas oferecem benefícios superiores às escapadas curtas. Por exemplo, uma semana longe da rotina tende a proporcionar uma redução do estresse mais prolongada em comparação a uma viagem rápida de três dias. Petrick espera que estudos futuros analisem os efeitos das férias mais longas.
Este não é o primeiro estudo a destacar os benefícios das férias para o coração. Uma pesquisa anterior acompanhou mais de 12 mil homens com risco elevado de doenças coronarianas e constatou que aqueles que tiraram férias anualmente ao longo de nove anos reduziram seu risco geral de mortalidade em cerca de 20% e diminuíram em até 30% as chances de falecer devido a problemas cardíacos.
Outros benefícios
Outra investigação focou na relação entre frequência das férias e síndrome metabólica, revelando que cada período adicional de descanso reduz o risco dessa condição em aproximadamente 25%.
A evidência científica sugere que os efeitos positivos das viagens vão além do tempo fora de casa, já que planejar uma viagem ativa circuitos cerebrais associados ao prazer e à expectativa.
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos identificou uma correlação entre a antecipação das viagens e um aumento em energia, concentração e até empatia. Sentimentos positivos podem emergir meses antes da partida e continuar após o retorno.
Uma constante observada em diversas pesquisas é a diminuição do estresse. Ao se desconectar das obrigações diárias, o corpo entra em um estado propício à recuperação. Além disso, viajar está associado à redução da ansiedade, melhora no humor e aumento da sensação geral de bem-estar.
Esse fenômeno está parcialmente ligado à liberação de neurotransmissores como dopamina — relacionada ao prazer — além da diminuição do estresse crônico. Mudar o ambiente e o ritmo cotidiano também pode beneficiar a saúde física.
Estudos indicam que as viagens podem aprimorar a qualidade do sono, diminuir a fadiga acumulada e incentivar atividades físicas como caminhadas. Segundo a Sociedade Internacional de Medicina de Viagem, melhorias no humor e na qualidade do sono podem persistir por até cinco semanas após as férias.
Tirar um tempo para descansar e dormir adequadamente durante as férias também facilita o retorno ao trabalho com maior clareza mental, foco renovado e aumento da produtividade. Um estudo realizado pela Ernst & Young revelou que cada 10 horas adicionais de férias resultavam em uma elevação de 8% no desempenho anual dos funcionários. Em outra pesquisa com férias obrigatórias promovida por uma empresa, foram registrados aumentos significativos na criatividade, felicidade (humor) e produtividade dos colaboradores.
Um artigo publicado no site Psychology Today sugere que desconectar-se do trabalho fora do expediente contribui para aumentar nossa resiliência frente ao estresse além de tornar-nos mais produtivos e engajados nas atividades laborais. Mesmo uma breve fuga durante o fim de semana pode oferecer alívio significativo do estresse profissional, enquanto viagens mais longas proporcionam ainda mais conforto.
“Viajar funciona como uma válvula de escape para o estresse tal como exercícios físicos ou hobbies”, comenta Elton Yoji Kanomata, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein. “Isso resulta na diminuição dos níveis de estresse e podemos notar melhorias nos sintomas cognitivos relacionados à exaustão mental. Não apenas porque viajar é relaxante, mas também pelo período prolongado longe do trabalho que ajuda na redução da ansiedade — tudo isso contribui para uma sensação geral de bem-estar.”
