Entre celebrações e gestos amistosos com Trump, a colaboração da China com o Irã gera tensão na passagem de Xi Jinping

Durante uma visita a Washington que priorizou mais o simbolismo do que ações concretas, um assunto delicado emergiu nas conversas entre o presidente chinês, Xi Jinping, e seu anfitrião americano, Donald Trump: as interações comerciais entre Pequim e Teerã. O Irã, que se tornou protagonista de uma guerra sem desfecho desde que Trump a iniciou em fevereiro, está vendo um crescimento nas relações comerciais com a China, incluindo petróleo e produtos manufaturados. Além disso, informações de inteligência sugerem uma colaboração com objetivos militares. No entanto, confrontar a China não está entre as prioridades imediatas da administração americana.

Antes da reunião ocorrida na quinta-feira, integrantes do governo Trump optaram por minimizar as reclamações sobre o Irã. O secretário de Estado, Marco Rubio, mencionou que os líderes abordariam questões relevantes de forma direta. O Departamento do Tesouro dos EUA fez referência às sanções impostas a entidades chinesas acusadas de infringir essas medidas. Por sua vez, Trump preferiu enfatizar a amizade que acredita ter com Xi como uma forma de se distanciar das críticas recebidas até mesmo por sua base política.

— O presidente estabelecerá conexões com qualquer pessoa para defender nossos interesses nacionais e assegurar bons acordos para o povo americano — afirmou Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, conforme reportado pelo portal The Hill.

Em um contexto mais reservado, Trump adotou um tom mais rigoroso. O embaixador americano na China, David Perdue, declarou à CNBC que o presidente alertou Xi sobre a total inaceitabilidade de qualquer assistência ao Irã — seja ela direta ou indireta — no que diz respeito à inteligência ou ao fornecimento de equipamentos militares.

— Trump deixou isso muito claro ontem (quinta-feira). Essa é uma mensagem que vem sendo reiterada constantemente — disse Perdue à CNBC, antes de voltar ao tom conciliatório da atual administração. — Foi uma conversa bastante franca e aberta; acredito que a cada diálogo conseguimos perceber um nível maior de proximidade ao lidarmos com essas questões complexas.

A relação comercial entre China e Irã é anterior à “Operação Fúria Épica” e tem o petróleo como principal produto. A China se destaca como a maior compradora do Irã, absorvendo 80% das exportações petrolíferas do país e ignorando as sanções internacionais que foram endurecidas em 2018 através da estratégia de “Pressão Máxima”. Uma intrincada rede de empresas e instituições financeiras coordena operações próximas ao limite legal, frequentemente alterando a origem do petróleo iraniano.

As refinarias independentes são os principais compradores desse petróleo e servem predominantemente o mercado interno iraniano, ficando assim protegidas contra sanções externas. Essa abordagem é sustentada por um acordo estratégico de 25 anos assinado em 2021 entre Pequim e Teerã. Dados da consultoria Kpler indicam que em fevereiro o volume diário exportado para a China era de 1,57 milhões de barris; contudo, após o bloqueio no Estreito de Ormuz em agosto, esse número caiu para pouco mais de 500 mil barris.

A dinâmica comercial entre Irã e China passou por alterações significativas nos últimos meses. Conforme informações do Wall Street Journal baseadas em documentos da aduana iraniana, foram registrados mais de 1.300 envios provenientes da China com cargas classificadas como “uso duplo” — tanto civil quanto militar — para clientes iranianos. Essa lista abrange componentes eletrônicos cuja exportação é restrita. No aeroporto Imam Khomeini, principal terminal do país, tem sido comum ver caixas contendo motores e peças para aviões além de equipamentos de navegação via GPS passando pela alfândega.

Além disso, empresas chinesas têm enviado produtos químicos utilizados na fabricação de combustíveis para mísseis balísticos; uma dessas empresas foi incluída na lista de sanções elaborada pelo Departamento do Tesouro dos EUA. Em meio ao impasse naval em Ormuz, os voos entre os dois países aumentaram significativamente, com a companhia Mahan Air — uma das mais sancionadas globalmente — atuando como principal transportadora.

Os iranianos também têm recorrido a um sistema de permuta estabelecido há alguns anos que possibilitou a aquisição de bilhões em produtos restritos, incluindo itens militares; essa informação foi revelada pela agência Reuters no início deste mês. A China rejeita as sanções impostas pelos EUA e argumenta que estas carecem de respaldo no direito internacional e não têm autorização do Conselho de Segurança da ONU.

— Para ser sincero, se a Casa Branca tivesse me solicitado um conselho, eu teria sugerido que o presidente evitasse convidar Xi Jinping para uma recepção tão grandiosa nos Estados Unidos considerando todas as preocupações relacionadas ao presidente Xi e ao Partido Comunista Chinês — comentou o senador republicano Roger Wicker conforme citado pela Associated Press. Ele expressou sua preocupação junto com outros membros do Congresso sobre os potenciais impactos dessa parceria no cenário bélico do Golfo.

By Canoas Informa

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