Desvendando oito equívocos sobre o Alzheimer que preocupam os especialistas

A doença de Alzheimer continua envolta em mitos, preconceitos e informações errôneas que circulam amplamente entre as pessoas. Essas crenças não apenas perpetuam o estigma associado à condição, mas também podem complicar o processo de diagnóstico, atrasar tratamentos e causar sofrimento desnecessário tanto para os pacientes quanto para seus cuidadores.

Especialistas abordam a seguir algumas das ideias equivocadas mais frequentes sobre a doença e ressaltam a importância de desmistificá-las.

– 1- “Não há o que fazer para a doença de Alzheimer”: A geriatra Claudia Suemoto, professora na Universidade de São Paulo (USP), esclarece que, embora ainda não haja cura, existem várias intervenções possíveis. Segundo ela, medicamentos podem estabilizar ou retardar a progressão dos sintomas, especialmente se utilizados nas fases iniciais da doença.

Além dos medicamentos, práticas não farmacológicas como estimulação cognitiva, atividade física regular, controle de doenças cardiovasculares, alimentação saudável e suporte psicossocial têm um efeito positivo significativo na funcionalidade e no bem-estar dos pacientes.

“A crença de que nada pode ser feito desmotiva tanto os pacientes quanto suas famílias, resultando em menos acompanhamento médico e perda de oportunidades para manter a autonomia e uma boa qualidade de vida por mais tempo. Um cuidado multidisciplinar, que inclua apoio familiar, é crucial para o cotidiano dos afetados”, complementa a médica.

– 2- “Perda de memória é normal do envelhecimento”: Claudia aponta que pequenas alterações cognitivas podem ocorrer com a idade – como demorar mais para lembrar nomes ou processar informações –, mas a perda contínua e progressiva de memória não é uma parte normal do envelhecimento.

“Esse equívoco é perigoso porque leva muitas pessoas e suas famílias a ignorarem os primeiros sinais da doença, atrasando diagnósticos e intervenções que poderiam melhorar significativamente a qualidade de vida”, analisa Claudia. “Identificar precocemente problemas de memória permite investigar causas tratáveis, como depressão ou deficiência vitamínica, além de possibilitar o início de estratégias que possam desacelerar doenças neurodegenerativas. Aceitar essa perda como algo ‘normal’ resulta em uma valiosa oportunidade perdida”, enfatiza.

– 3- “As medicações freiam a progressão da doença”: As quatro opções terapêuticas disponíveis atualmente – rivastigmina, donepezila, galantamina e memantina – não interrompem as mudanças patológicas da doença nem alteram seu curso natural.

Ricardo Afonso Teixeira, doutor em neurologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do Instituto do Cérebro em Brasília, explica: “Esses medicamentos atuam na modulação da neurotransmissão, permitindo que os pacientes apresentem melhorias nos sintomas. Embora o declínio cognitivo continue, a condição clínica pode ser melhor com o uso das medicações em comparação à ausência delas.”

Acreditar nesse mito pode gerar expectativas irrealistas quanto ao tratamento e provocar frustração nas famílias envolvidas.

– 4- “Exames podem prever a doença”: Teixeira destaca que testes de triagem podem sugerir um risco aumentado para desenvolver Alzheimer; no entanto, isso não implica necessariamente que a pessoa irá adquiri-la.

Ele ressalta que saber um resultado indicando alto risco poderia incentivar hábitos saudáveis imediatos, mas “as medidas necessárias para preservar o funcionamento cerebral em idades avançadas são as mesmas independentemente do resultado do exame”. Isso inclui abordar fatores modificáveis como tabagismo e hipertensão arterial.

Atualmente, o especialista recomenda que esses exames sejam realizados apenas em indivíduos selecionados por médicos especializados e não na população geral. Um resultado sem acompanhamento apropriado pode causar ansiedade desnecessária e prejudicar o bem-estar emocional do indivíduo.

– 5- “O canabidiol cura o Alzheimer”: A neurologista Elisa de Paula Resende, coordenadora do Departamento Científico de Cognição da Academia Brasileira de Neurologia, afirma que apesar do canabidiol poder ajudar com alguns sintomas da doença – como agitação e distúrbios do sono –, ainda não existe cura para Alzheimer.

“Isso pode levar as pessoas a abandonarem os tratamentos adequados com medicamentos prescritos em favor de alternativas sem evidências suficientes”, alerta ela.

– 6- “Uma pessoa sozinha consegue cuidar de um familiar com Alzheimer”: Leandro Minozzo, geriatra e autor do livro Como cuidar de um familiar com Alzheimer e não adoecer (Editora Sulina), destaca os desafios enfrentados pelas famílias: “No início, muitos cuidadores acreditam que conseguem lidar com as dificuldades sozinhos. No entanto, com o passar do tempo, mesmo aqueles bem preparados podem adoecer devido à pressão emocional.”

Ele afirma que cuidar sozinho é inviável: “O custo disso é elevado — financeiramente e emocionalmente”, diz Minozzo. Reforçar essa crença sobre a capacidade individual do cuidador pode levar ao desgaste físico e emocional dele próprio e comprometer o cuidado prestado ao paciente.

– 7- “Ter Alzheimer significa viver fora da realidade e agir com agressividade”: O neurologista Diogo Haddad, líder do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, enfatiza que cada paciente deve ser tratado como único. “Embora o Alzheimer possa causar mudanças comportamentais como agitação ou confusão mental, nem todos os pacientes apresentam os mesmos sintomas. Muitos permanecem conectados emocionalmente com amigos e familiares nas fases iniciais ou intermediárias,” explica ele.

A visão negativa generalizada pode desumanizar os pacientes e dificultar laços afetivos entre eles e seus cuidadores. “Além disso, as mudanças comportamentais podem ser tratadas adequadamente com intervenções específicas sob supervisão médica”, finaliza Haddad.

– 8- “As demências são doenças apenas de pessoas idosas”: Thais Bento Lima da Silva, gerontóloga com PhD em Neurologia Cognitiva pela USP , alerta que embora as demências afetem principalmente idosos, há casos diagnosticados em indivíduos abaixo dos 60 anos. Além da doença de Alzheimer existem demências vasculares e frontais (que frequentemente ocorrem em faixas etárias mais jovens).

By Canoas Informa

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