Nesta terça-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realizará a abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em Nova York, Estados Unidos.
Ao se dirigir ao púlpito da Assembleia Geral, Lula será o primeiro líder mundial a discursar no evento de 2026, uma tradição que se repete anualmente, marcando um dos mais significativos debates diplomáticos a nível global. Mas por que o Brasil tem a honra de iniciar esse evento? A resposta está enraizada em tradições diplomáticas, mais do que em normas formais.
Conforme relatado no livro O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011, lançado pela Fundação Alexandre de Gusmão para celebrar os 50 anos da ONU, essa prática teve início em 1949, durante o clima tenso da Guerra Fria, com o intuito de evitar que os Estados Unidos ou a União Soviética dominassem as discussões.
Desde então, tornou-se uma norma: antes de abrir a lista de discursos, o secretário-geral consulta a missão brasileira para saber se o país deseja continuar com essa tradição. A resposta sempre positiva perpetua uma prática que “honra e distingue o Brasil”, conforme apontado na obra.
O livro também ressalta que essa situação estabeleceu na diplomacia brasileira a convicção de que o discurso inaugural possui uma importância estratégica.
Diferentemente da maioria das delegações que focam em tópicos específicos, o Brasil tem utilizado esse espaço para oferecer análises amplas sobre a conjuntura internacional, apresentando sua perspectiva global e defendendo questões estruturais como combate à fome, desenvolvimento e reforma das instituições multilaterais.
Lucas Leite, professor da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), explica que essa tradição também possui raízes formais:
“O Brasil desempenhou um papel significativo na elaboração da Carta da ONU e nas discussões para a criação da organização. O diplomata Oswaldo Aranha foi fundamental na primeira Assembleia Geral, liderando inclusive o processo que resultou na criação do Estado de Israel. Além disso, a diplomacia brasileira sempre foi respeitada pela sua capacidade de mediar conflitos e criar consensos, fator que ajuda a entender a continuidade dessa tradição”.
A escolha do Brasil para abrir os discursos também reflete o papel que o país desejava assumir após a guerra: uma voz ativa no multilateralismo, mesmo sem ser uma das grandes potências vitoriosas do conflito.
“Há um argumento de que isso funcionou como um prêmio de consolação já que o Brasil não conseguiu se tornar membro permanente do Conselho de Segurança devido à oposição da União Soviética e países europeus. No entanto, mais do que isso, demonstra a confiança depositada por outras nações na diplomacia brasileira”, complementa Leite.
A partir de 1955, é comum que o Brasil inicie o Debate Geral, seguido pelo país anfitrião dos EUA. Esse arranjo trouxe estabilidade ao protocolo: após esses dois discursos iniciais, as ordens são definidas com base no nível das autoridades presentes e critérios geográficos e de inscrição.
A tradição se manteve ao longo dos anos com raras exceções causadas por atrasos ou mudanças nas agendas. Por exemplo, nos anos de 1983 e 1984 os EUA discursaram antes do Brasil; em 2016, coube ao Chade ocupar a segunda posição devido ao atraso do presidente americano.
Mais do que um detalhe protocolar, essa abertura dos discursos na ONU proporciona ao Brasil uma visibilidade significativa. Funciona como uma plataforma para projetar sua política externa e destacar suas prioridades diante de líderes mundiais e jornalistas internacionais.
“Essa tradição pode ser vista como simbólica; no entanto, também representa um elemento concreto do poder brasileiro”, observa Leite.
O professor enfatiza que o país sempre promoveu soluções pacíficas para controvérsias e defendeu as instituições multilaterais. “Nesse contexto, ser o primeiro orador assegura que as vozes brasileiras sejam ouvidas”, afirma.
“Às vezes brinco dizendo que muitos não estão ali para ouvir o representante brasileiro mas sim o americano logo após. Contudo, como já estão sentados quando falamos, o impacto do Brasil é maior do que outros países cujos discursos ocorrem em dias seguintes”, acrescenta Paulo Velasco.
Dessa forma, segundo especialistas consultados, trata-se de uma tradição vantajosa para o país e coloca-o sob os holofotes internacionais. “Temos espaço para transmitir nossas mensagens com maior força ou menor intensidade sempre em um ambiente privilegiado”, conclui Velasco.
Ao longo dos anos, a diplomacia brasileira alternou entre diferentes enfoques: desde uma postura alinhada aos Estados Unidos até uma abordagem mais voltada ao globalismo e desenvolvimento dos países do Sul Global.
Leite acrescenta: “Essa ‘pendulação’ é visível nos discursos brasileiros na Assembleia Geral. Governos não necessariamente alinhados à esquerda como os de Temer ou Fernando Henrique frequentemente abordavam temas centrais como desenvolvimento e combate à pobreza. A única exceção foi durante o governo Bolsonaro, cujas falas foram populistas e subordinadas aos Estados Unidos enquanto negavam o multilateralismo”.
Historicamente falando, argumenta Leite, os discursos brasileiros têm desempenhado um papel crucial em moldar as discussões sobre fome global, pobreza extrema e reformas institucionais internacionais.
“Simbolicamente e na prática”, conclui Leite,”o Brasil atua como uma ponte entre diferentes mundos: Ocidente e Oriente; Norte e Sul; autonomia e desenvolvimento”.
