A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) confirmou, em uma reunião da diretoria colegiada realizada na semana passada, a detecção da bactéria Pseudomonas aeruginosa em produtos da marca Ypê, que tiveram sua comercialização suspensa pelo órgão na semana anterior. Esta não é a primeira vez que a bactéria é identificada nos itens da empresa; em novembro do ano passado, a Ypê já havia enfrentado sanções da Anvisa devido à presença do mesmo microrganismo.
A Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria encontrada em ambientes aquáticos, no solo e em superfícies úmidas. Especialistas indicam que ela apresenta baixo risco para a maioria da população, mas pode ser perigosa para grupos vulneráveis. O médico Luís Fernando Correia, colunista do Pulsa, alerta para os riscos que essa bactéria representa para pacientes com condições específicas, como fibrose cística, queimaduras, câncer, transplantes, imunossupressão, recém-nascidos e idosos debilitados. “É uma bactéria oportunista e resistente a diversos antibióticos”, acrescenta.
Alberto Chebabo, infectologista dos laboratórios Sergio Franco da Dasa, enfatiza que a presença dessa bactéria em produtos de limpeza eleva o risco de contaminação e pode resultar em infecções nas populações mais vulneráveis. Ele observa que o risco de infecção para pessoas saudáveis após contato com produtos contaminados é baixo; no entanto, lesões na pele podem facilitar a entrada da bactéria no organismo.
Nos casos de indivíduos mais suscetíveis, Correia aponta que essa bactéria pode levar a pneumonia hospitalar severa, infecções na corrente sanguínea, sepse e até infecções oculares. Por esse motivo, a Anvisa decidiu manter um alerta sanitário mesmo após a Ypê ter conseguido reverter temporariamente a suspensão dos seus produtos.
Cristiane Rodrigues Guzzo, especialista do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), ressaltou que esse tipo de contaminação pode comprometer seriamente a eficácia dos produtos. “Além de perderem suas propriedades de limpeza, esses itens podem também contaminar superfícies e utensílios durante o uso”, advertiu. Ela destacou que a Pseudomonas aeruginosa é uma das poucas bactérias com capacidade de sobreviver e proliferar em detergentes e outros produtos de limpeza. Além disso, alertou que a transmissão pode ocorrer não só pelo contato com produtos contaminados mas também pela exposição à água poluída.
Em uma operação conjunta entre Anvisa, o Centro de Vigilância Sanitária do estado de São Paulo e a Vigilância Sanitária Municipal de Amparo foram encontradas 76 irregularidades no processo produtivo da Química Amparo, responsável pela fabricação dos produtos Ypê. No dia 7 de maio, a Anvisa determinou o recolhimento dos itens e suspendeu sua fabricação e comercialização devido a falhas no controle e garantia da qualidade.
A agência identificou problemas sérios relacionados ao controle microbiológico nos produtos analisados, incluindo a presença da Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes. No dia seguinte à determinação da suspensão, em 8 de maio, a Ypê apresentou um recurso à Anvisa com esclarecimentos técnicos e conseguiu suspender temporariamente as restrições impostas.
No entanto, na última sexta-feira (15), a diretoria colegiada da Anvisa decidiu manter as restrições sobre fabricação e venda dos produtos irregulares da Ypê. Essa decisão anulou os efeitos do recurso apresentado pela empresa anteriormente e foi fundamentada por critérios que asseguram qualidade e segurança aos produtos oferecidos ao consumidor.
O diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, afirmou que essa decisão se baseia no histórico recorrente de contaminação microbiológica envolvendo os produtos da marca. “Essa situação levou à adoção de medidas sanitárias preventivas”, completou.
Safatle ainda mencionou que os técnicos consideraram o cenário como representando um alto risco à saúde pública devido às falhas observadas em várias barreiras críticas responsáveis pelo controle da qualidade dos produtos saneantes: “Não se trata apenas de desvios pontuais”, finalizou.
Reembolso
Aqueles consumidores que compraram produtos da Ypê afetados pela suspensão decretada pela Anvisa podem solicitar reembolso através dos canais oficiais da empresa. A fabricante anunciou que criou um sistema para registro dessas solicitações relacionadas aos lava-roupas líquidos, lava-louças líquidos e desinfetantes incluídos na medida.
Para receber orientações sobre troca ou reembolso dos itens adquiridos, os consumidores devem abrir um protocolo de atendimento informando seus dados pessoais como CPF, e-mail e chave Pix para devolução do montante pago. O envio do cupom fiscal não é obrigatório para realizar o cadastro. Após registrar a solicitação no sistema disponibilizado pela empresa, um código será gerado para acompanhamento do pedido. As informações são provenientes do jornal O Estado de S. Paulo.
