Ao chegar na estação de Barcelona Sants, localizada na capital da Catalunha, o turista busca a melhor forma de se deslocar até o hotel, situado nas proximidades da famosa Igreja da Sagrada Família. O aplicativo de navegação sugere que a caminhada de aproximadamente 5 quilômetros levaria cerca de 50 minutos. Em contrapartida, se o trajeto fosse feito de carro ou bicicleta, a estimativa é de apenas 14 minutos.
A opção escolhida foi o transporte público, que permite percorrer cinco estações de metrô em apenas 10 minutos. Durante essa viagem, questões sobre o que torna Barcelona um modelo em mobilidade urbana passaram a ser observadas na prática, ao invés de permanecerem no campo teórico.
Barcelona frequentemente surge como um exemplo em análises sobre a qualidade da mobilidade urbana. Os primeiros momentos na cidade já revelam indícios disso. O tráfego parece controlado, possivelmente devido ao fato de ser sábado; as motos e bicicletas são mais comuns do que os automóveis. Esse fenômeno é favorecido pelo clima mediterrâneo agradável, mesmo no final do inverno europeu, e em algumas vias o espaço destinado aos veículos é menor do que aquele reservado para pedestres e ciclistas.
No entanto, conforme destaca Oriol Marquet, professor e coordenador de um grupo de pesquisa sobre mobilidade na Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), uma experiência individual não pode refletir a realidade coletiva. Ele acredita que a imagem idealizada da cidade não retrata completamente a vida dos mais de 1,6 milhão de habitantes.
Marquet ressalta que há desafios significativos fora das áreas centrais que atraem turistas. Deslocamentos longos, dependência excessiva de veículos particulares, poluição e desigualdades no acesso ainda são problemas presentes na região metropolitana, para onde muitos moradores estão sendo deslocados devido ao aumento dos custos e à gentrificação.
O especialista argumenta que cidades como Barcelona não podem simplesmente ter seu modelo replicado em outros lugares. “A força está não apenas nas políticas implementadas, mas também em condições urbanísticas essenciais como densidade populacional, uso misto do solo e continuidade urbana”, explica. “O problema surge quando outras localidades tentam copiar superficialmente os aspectos visualmente atrativos sem atender aos requisitos fundamentais.”
Entre as iniciativas inovadoras da cidade estão as chamadas “superquadras”, áreas onde o tráfego veicular é restrito ou proibido e os cruzamentos foram transformados em espaços verdes.
<pNa hora da partida, optou-se pela bicicleta para retornar ao ponto inicial. Ao contrário dos 15 minutos sugeridos pelo aplicativo para ir do hotel até a estação ferroviária, o percurso foi realizado em menos de dez minutos. A Europa realmente parece estar investindo na bicicleta como uma solução para descongestionar o trânsito.
Colômbia
A capital colombiana Bogotá apresenta uma realidade mais semelhante à do Brasil e é conhecida pelos frequentes engarrafamentos. Estudos indicam que os cidadãos perdem cerca de oito horas por semana parados no trânsito. A metrópole enfrenta crescimento populacional acelerado e uma urbanização caótica, aumentando os desafios relacionados à mobilidade.
Uma das tentativas para solucionar essa questão foi a implementação do sistema TransMilenio, um ônibus de trânsito rápido (BRT), mas a demanda ainda supera a oferta disponível e há problemas estruturais. A cidade também tem investido fortemente na utilização de bicicletas com a criação da maior rede de ciclovias da América Latina, totalizando 476 quilômetros; contudo, questões sociais como insegurança ainda desestimulam seu uso.
Um dos projetos mais reconhecidos internacionalmente é a Ciclovia de Bogotá, que há 50 anos fecha todos os domingos 127 quilômetros das principais vias para veículos motorizados. Esta iniciativa inspirou outras cidades a criar espaços semanais dedicados à prática esportiva e ao lazer, além de desencorajar o uso do carro.
“Esse projeto representa uma transformação urbana e social significativa na vida de milhões”, afirma Daniel García Cañón, diretor do Instituto Distrital de Recreação e Esporte (IDRD) da prefeitura bogotana.
A estratégia adotada por Singapura também visa reduzir o uso do carro e aproximar as pessoas do transporte público. Na ilha-estado asiática foi implementado um sistema dinâmico de pedágio urbano – com tarifas ajustadas conforme o fluxo do tráfego – além da construção de uma extensa malha ferroviária que torna fácil para os moradores acessarem uma estação em poucos minutos.
Tais medidas têm colocado Singapura frequentemente no topo dos rankings globais relacionados à mobilidade urbana.(com informações do portal Valor Econômico)
