A luta para aceitar a própria imagem refletida no espelho pode, muitas vezes, ser um desafio que vai além da simples vaidade. A busca incessante por corrigir imperfeições inexistentes ou não percebidas por outros e a constante vontade de modificar o corpo podem ser sinais de dismorfia corporal, uma condição mental séria.
Reconhecido formalmente como transtorno dismórfico corporal, esse distúrbio pode desestabilizar significativamente a autoestima e comprometer a saúde psicológica do indivíduo. Para aqueles que enfrentam essa condição, até mesmo ter um corpo considerado “ideal”, como um físico atlético, pode não ser suficiente. Tom Daley, ex-atleta olímpico de saltos ornamentais, compartilhou no ano passado sua experiência com a dismorfia corporal, revelando que a pressão relacionada à sua imagem pessoal foi uma das principais fontes de estresse durante sua trajetória esportiva.
Outro artista que também lida com esse transtorno é o ator Sebastian Stan, famoso por seu papel como o Soldado Invernal na série de filmes da Marvel sobre o Capitão América. Aos 43 anos, Stan mencionou que sentia que seu corpo só se mantinha em um estado ideal por um curto período, após o qual ele se via lutando para não se sentir “insuficiente” devido à intensa rotina de exercícios e dieta.
Nas plataformas sociais, cada vez mais pessoas relatam como a pressão dos padrões estéticos promovidos pelo mundo fitness levou ao desenvolvimento de insatisfação corporal. No TikTok, por exemplo, a hashtag #dismorfiacorporal já acumula mais de 150 mil vídeos.
Entre os depoimentos está o de Ranaísis Azenha, uma estudante de Nutrição de 20 anos. Ela decidiu compartilhar suas experiências na plataforma e atualmente recebe acompanhamento profissional. Ranaísis acredita que é possível buscar melhorias físicas sem causar danos à própria saúde.
“Quando comecei minha jornada fitness, minha motivação era prejudicial. Queria transformar meu corpo rapidamente a qualquer custo, tentando compensar excessos e manter controle. Os sintomas começaram durante a pandemia e se intensificaram em meio ao transtorno alimentar. Eu olhava no espelho e não conseguia ver meu corpo de forma realista; sempre achava que precisava emagrecer ainda mais”, relata.
A jovem também menciona que as redes sociais contribuíram para essa distorção da própria imagem.
“Era uma constante comparação com os outros e uma sensação permanente de nunca estar à altura”, explica.
A doutora Juliana Lopes Fernandes Massapust Pestana, especialista em Neurociências pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutoranda em Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que nem toda insatisfação corpórea deve ser considerada dismorfia corporal.
“Por um lado, há uma subnotificação dos casos de dismorfia no Brasil; por outro lado, o termo é frequentemente utilizado para descrever inseguranças relacionadas ao corpo causadas pela pressão estética”, esclarece.
Segundo Pestana, a chave para diferenciar os dois casos reside nas consequências que o transtorno provoca na vida dos indivíduos afetados. Estimativas internacionais indicam que entre 2% e 3% da população sofre dessa condição.
“O transtorno resulta em prejuízos significativos; isso ocorre porque a obsessão pela aparência é intensificada. O indivíduo torna-se excessivamente preocupado com como é visto pelos outros, impactando negativamente suas relações interpessoais. Essa insatisfação crônica consigo mesmo pode afetar até mesmo seu desempenho no trabalho”, detalha.
Alguns comportamentos que podem servir como sinalizadores incluem:
- Verificações frequentes no espelho;
- Excesso de tratamentos estéticos;
- Modificações corporais exageradas;
- Uso de roupas largas para esconder supostas imperfeições.
“Nos casos mais severos que chegam ao consultório, essas pessoas muitas vezes já realizaram tantas intervenções estéticas que perdem suas características originais”, observa.
Dismorfia muscular
No mesmo contexto dos relatos de Tom Daley e Sebastian Stan, muitos homens enfrentam a vigorexia, uma forma específica do transtorno dismórfico corporal caracterizada pelo desejo obsessivo de aumentar a massa muscular enquanto nunca se veem suficientemente fortes.
“Neste caso, os treinos deixam de ser algo prazeroso. Esses homens podem evitar sair ou manter relacionamentos devido à preocupação com sua forma física e desenvolvem crenças negativas sobre si mesmos, sentindo-se pequenos ou inadequados. Isso pode levá-los a lesões severas devido ao excesso na musculação e problemas fisiológicos relacionados ao uso indiscriminado de anabolizantes”, alerta.
Uma pesquisa publicada na revista científica Performance Enhancement & Health em 2025 revelou que a exposição intensa a conteúdos relacionados ao fitness nas redes sociais e uma paixão obsessiva pelo treinamento são fatores potenciais para o surgimento dos sintomas da dismorfia muscular. O estudo analisou dados coletados com 502 participantes entre 16 e 30 anos. (Com informações do jornal O Globo)
