Negócio

Antonio Júlio Machado Rodrigues analisa a importância da gestão de riscos no setor bancário

No setor bancário, crescer e assumir riscos são movimentos inseparáveis. Todo empréstimo concedido, recurso captado ou operação realizada em moeda estrangeira cria algum nível de exposição. A questão, portanto, não é eliminar o risco, mas saber identificá-lo, dimensioná-lo e administrá-lo.

A trajetória de Antonio Júlio Machado Rodrigues, também conhecido como Julio Rodrigues, oferece uma perspectiva construída em diferentes áreas desse universo. Ao longo de sua experiência executiva no Brasil e no exterior, esteve ligado a crédito, câmbio, tesouraria, gestão de ativos e passivos e comitês responsáveis por decisões estratégicas.

Essa combinação conduz a uma ideia central: uma instituição não se torna mais segura simplesmente porque assume menos riscos. Torna-se mais preparada quando entende quais riscos está assumindo e possui mecanismos para responder a eles.

Crédito: crescer sem perder a qualidade da carteira

Conceder crédito é uma das atividades fundamentais de um banco. Também é uma de suas principais fontes de risco.

O desafio aparece quando a busca por crescimento começa a competir com a disciplina necessária para avaliar clientes, garantias, capacidade de pagamento, prazos e concentração da carteira.

Durante sua atuação executiva no Banif Brasil, Julio Rodrigues presidiu o Comitê de Crédito e esteve ligado à administração de operações de crédito comercial e imobiliário. Essa experiência ajuda a colocar a concessão de recursos dentro de uma perspectiva mais ampla.

Uma carteira não deveria ser avaliada somente pelo quanto cresce. É preciso observar como cresce.

Expandir rapidamente pode produzir resultados no curto prazo, mas decisões inadequadas aparecem posteriormente na forma de inadimplência e deterioração dos ativos. Por isso, uma política consistente precisa equilibrar oportunidade comercial e capacidade de absorver eventuais perdas.

Liquidez: o risco que pode surgir mesmo quando existem ativos

Um banco pode possuir patrimônio e uma carteira relevante de ativos e, ainda assim, enfrentar dificuldades caso não consiga atender suas obrigações no momento necessário.

Essa é uma das razões pelas quais liquidez ocupa posição central na administração bancária.

Na prática, recursos captados e recursos emprestados possuem prazos e características diferentes. O cliente pode querer movimentar determinado valor antes que um financiamento concedido pela instituição chegue ao vencimento.

É nesse ponto que entra a gestão de ativos e passivos, ou ALM (Asset and Liability Management).

A experiência de Julio Rodrigues inclui a presidência do Comitê de Ativos e Passivos no Banif Brasil e participação em estrutura semelhante na operação de Cayman. A função evidencia algo essencial: rentabilidade e liquidez precisam ser administradas conjuntamente.

Buscar retorno sem considerar quando os recursos estarão disponíveis pode transformar uma decisão aparentemente lucrativa em uma fonte de vulnerabilidade.

Câmbio adiciona outra dimensão ao risco

Quando as operações atravessam fronteiras, uma nova variável ganha relevância: a moeda.

Receitas, obrigações, financiamentos e ativos denominados em moedas diferentes podem alterar de valor conforme as taxas de câmbio se movimentam.

A experiência profissional de Julio Rodrigues começou a incorporar essa dimensão ainda durante sua trajetória no Banco Auxiliar, onde exerceu funções relacionadas à mesa de câmbio e à área internacional. Posteriormente, o tema permaneceu presente em cargos executivos ligados ao comércio exterior e às operações bancárias internacionais.

A exposição cambial não deve ser interpretada apenas como uma tentativa de prever se determinada moeda vai subir ou cair.

Para uma organização, a pergunta mais importante é outra: o que acontece com sua posição financeira caso o câmbio se movimente de maneira diferente daquela esperada?

Essa mudança de perspectiva transforma a gestão cambial. Em vez de depender exclusivamente de previsões, a organização passa a trabalhar também com cenários e limites de exposição.

Os riscos não existem isoladamente

Um dos erros mais perigosos na administração financeira é analisar cada exposição como se ela estivesse separada das demais.

Na realidade, crédito, liquidez, juros e câmbio podem se influenciar.

Uma mudança econômica pode reduzir a capacidade de pagamento de determinados clientes. Ao mesmo tempo, pode encarecer a captação, provocar movimentações cambiais e aumentar a necessidade de liquidez.

Por isso, administrar riscos exige uma visão integrada.

A passagem de Julio Rodrigues por diferentes áreas do setor bancário — incluindo crédito, câmbio, tesouraria e operações internacionais — ajuda a ilustrar por que decisões financeiras precisam ser avaliadas por mais de uma perspectiva.

Uma oportunidade comercial pode ser interessante para a área de negócios e, ao mesmo tempo, exigir atenção adicional da tesouraria ou do comitê de crédito.

Governança transforma análise em decisão

Identificar um risco não significa necessariamente administrá-lo bem.

É preciso estabelecer quem pode tomar determinadas decisões, quais limites devem ser respeitados, quando uma operação precisa ser submetida a níveis superiores e como diferentes áreas participam do processo.

É justamente nesse ponto que a governança assume importância.

Na experiência executiva apresentada de Julio Rodrigues, os comitês ocupam espaço relevante. No Banif Brasil, esteve à frente de estruturas relacionadas a Crédito, Ativos e Passivos, Negócios e Gestão de Pessoas, além de gerenciar diretamente diretores responsáveis pelas principais áreas da operação.

A existência dessas instâncias permite que decisões relevantes sejam examinadas por diferentes perspectivas.

Uma boa estrutura de governança não elimina a necessidade de decidir. Ela melhora a qualidade do processo pelo qual a decisão é tomada.

A experiência internacional amplia a percepção de risco

A carreira de Julio Rodrigues também foi desenvolvida em diferentes mercados, com posições no Brasil, Estados Unidos e Venezuela e responsabilidades relacionadas a Portugal, Reino Unido e Cayman.

Essa diversidade importa porque risco não possui exatamente a mesma configuração em todos os lugares.

Ambientes regulatórios, moedas, condições de crédito, fontes de financiamento e características dos clientes mudam. Uma estratégia adequada para determinado mercado pode exigir adaptações significativas quando aplicada em outro.

Experiência internacional, nesse sentido, não representa apenas conhecer diferentes geografias. Significa ter contato com diferentes maneiras de estruturar, financiar e supervisionar operações.

O risco começa antes da crise

Existe uma tendência de discutir gestão de riscos principalmente quando alguma instituição enfrenta dificuldades. Mas, nesse momento, grande parte das decisões relevantes já foi tomada.

O risco é construído diariamente.

Ele aparece no crédito aprovado, no prazo escolhido, na concentração aceita, na exposição cambial assumida e na forma como ativos e passivos são combinados.

Por isso, uma administração consistente precisa atuar antes que os problemas se tornem evidentes.

A experiência de Julio Rodrigues em diferentes áreas da atividade bancária reforça essa leitura: crédito, liquidez, câmbio e governança não são temas independentes, mas componentes de uma mesma estrutura de decisão.

No fim, a qualidade da gestão não pode ser medida apenas pelos resultados obtidos quando o cenário é favorável. Um dos testes mais importantes é saber se as decisões tomadas hoje permitem que a organização continue funcionando quando as condições deixam de seguir o planejado.

É justamente aí que a gestão de riscos deixa de ser apenas um mecanismo de proteção e passa a fazer parte da própria estratégia bancária.

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