A neurocientista Tara White, da Brown University, tem mais de duas décadas de experiência em estudar os impactos de substâncias psicoativas no cérebro humano. Segundo ela, drogas como os psicoestimulantes, frequentemente prescritos para o tratamento do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), não oferecem vantagens quando utilizadas sem orientação médica por indivíduos que buscam aprimorar seu desempenho acadêmico ou profissional. Essas substâncias, que erroneamente são conhecidas como “smart drugs” (drogas inteligentes), podem causar efeitos adversos, incluindo aumento da frequência cardíaca e ansiedade, além do risco de dependência.
“Esses medicamentos podem criar a ilusão de que você está obtendo resultados melhores, mas na realidade isso não acontece”, afirma Tara, que lidera o Laboratório de Neurociência Afetiva na instituição. “Em algumas situações, é possível até que a qualidade do trabalho diminua, mas você acaba acreditando que está se saindo melhor do que realmente está.”
Para Tara, a alternativa mais segura para otimizar o desempenho é bastante simples: a prática regular de exercícios físicos. Abaixo estão trechos da entrevista concedida por ela ao jornal O Estado de S. Paulo.
– Quais são os efeitos colaterais mais comuns associados aos psicoestimulantes? “A utilização desse tipo de medicamento pela população em geral é alarmante, pois mesmo sem perceber, pode levar ao aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. As reações a esses estimulantes e anfetaminas variam muito entre as pessoas, tanto em termos emocionais quanto comportamentais. Algumas podem sentir inquietação ou ansiedade até mesmo com doses baixas; outras podem não notar qualquer efeito. Existem também aqueles que experimentam um aumento repentino de energia e uma sensação positiva.”
– Esses medicamentos realmente trazem benefícios à performance cognitiva? “ Jovens em ambientes de alta pressão têm buscado essas substâncias para lidar com o aumento constante das demandas no trabalho. Em um dos nossos estudos, investigamos se realmente havia melhora na cognição e concentração. Os resultados indicam que não existem benefícios significativos para a performance cognitiva ou comportamental em tarefas profissionais. O que acontece é uma sensação temporária de bem-estar e confiança. Eles fazem você acreditar que está apresentando melhores resultados, mas isso não se traduz na realidade.”
– Existe risco de dependência associado ao uso dessas drogas? “ Quando alguém utiliza esse tipo de medicação sem prescrição médica, geralmente não toma apenas uma dose isolada; acaba usando repetidamente ao longo do tempo. A automedicação com psicoestimulantes em ambientes familiares ou escolares pode acarretar riscos consideráveis de dependência química. Isso ocorre porque o cérebro começa a se habituar aos efeitos da droga nesse contexto específico. Fisiologicamente, o controle das decisões e do comportamento motor muda da via voluntária para a área relacionada aos hábitos nos gânglios basais dorsais. A forma como lidamos com recompensas passa por alterações difíceis de reverter uma vez que o cérebro aprende esses novos padrões.”
– Como você vê o uso dessas drogas por pessoas que não necessitam delas? “No momento atual, não existem tratamentos eficazes disponíveis para essa forma de dependência. Por esse motivo, é crucial destacar as consequências negativas do uso indiscriminado dessas substâncias. Nossos estudos sobre os efeitos cognitivos e comportamentais em voluntários saudáveis mostram que não há realmente benefícios perceptíveis para a cognição ou desempenho; apenas variações no humor são observadas entre indivíduos diferentes. Eu desaconselho fortemente o uso dessas substâncias sem supervisão médica, pois existe até o potencial de overdose.”
– Quais outros efeitos negativos podem surgir? “As anfetaminas têm como efeito colateral comum a insônia. Por isso, durante nossos estudos sobre esses medicamentos, administramos as doses apenas pela manhã para evitar interferências no sono – um processo essencial para a saúde cerebral. O sono envolve mais do que os diversos estágios conhecidos; é também quando o sistema glinfático atua para eliminar resíduos metabólicos do cérebro. Essa limpeza é vital para preparar o cérebro para um novo dia. Portanto, a interferência na qualidade do sono já representa um problema significativo.”
– Como se explica essa onda súbita de confiança?
“A ação das anfetaminas afeta vários sistemas receptores e neurotransmissores no corpo. Elas bloqueiam a recaptação dos neurotransmissores no neurônio, prolongando sua ação durante as sinapses entre células nervosas. Isso resulta em uma intensificação das ações desses neurotransmissores – como observado em minha pesquisa realizada em 2018 com relação ao glutamato. As modificações no cérebro afetam principalmente funções executivas localizadas na região frontal e no estriado ventral (área central), influenciando decisões e comportamentos bem como circuitos relacionados à atenção.”
– Quais são os perigos associados ao uso dessas substâncias por indivíduos mais jovens? “No caso dos transportadores de dopamina – um dos mecanismos pelos quais as anfetaminas atuam –, sua concentração tende a diminuir conforme envelhecemos; isso ocorre a partir dos 35 anos aproximadamente. O consumo precoce desses tipos de drogas ou álcool pode prejudicar o desenvolvimento cerebral ainda em curso nos jovens, representando um risco adicional relacionado à idade.”






