Saúde

Desvendando a droga experimental recebida por Lito Sousa: mecanismos de ação, efeitos adversos e perspectivas de cura

Após o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob em Lito Sousa, de 59 anos, sua esposa, Mila Seidl, iniciou uma busca urgente por tratamento. Essa condição rara é caracterizada por ser neurodegenerativa e apresenta uma progressão rápida.

No momento, não existem medicamentos reconhecidos para tratar essa enfermidade, embora alguns compostos estejam sendo avaliados em pesquisas clínicas. Depois de enfrentar diversas negativas, Lito obteve autorização para receber o fármaco ALN-6457, desenvolvido pela empresa americana Regeneron Pharmaceuticals, através do mecanismo de “uso compassivo”. Este recurso permite que pacientes com doenças graves e sem opções terapêuticas acessem tratamentos experimentais.

O medicamento chegou ao Brasil na madrugada do dia 12 e foi liberado rapidamente graças a uma operação conjunta da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A administração do fármaco ocorreu no mesmo fim de semana em que Lito estava internado na UTI devido a complicações relacionadas à sua condição. Segundo Mila, a aplicação foi bem-sucedida e não houve reações adversas ao produto.

O médico geneticista Salmo Raskin, que atua como diretor científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica (SBGM), detalha o funcionamento desse medicamento experimental.

* Como age a medicação?

A principal função do fármaco é inibir a formação de novas proteínas priônicas que podem sofrer alterações anormais e invadir outras células cerebrais. Raskin compara esse processo à entrega de uma mensagem pelo carteiro: “Se não conseguirmos corrigir os erros na carta, precisamos impedir que o mensageiro faça a entrega.” Ele explica que o propósito da substância é atacar esse mensageiro para evitar que as proteínas defeituosas sejam criadas no cérebro.

* Há possibilidade de cura para Lito?

A terapia visa diminuir a produção das proteínas priônicas, permitindo assim que as proteínas já existentes sejam eliminadas. Sem a proteína normal disponível, os príons defeituosos ficam sem o “combustível” necessário para se multiplicar.

“Ainda não sabemos se isso realmente acontecerá, qual será sua eficácia e em quais células do cérebro ocorrerá”, ressalta o médico. Mesmo que o tratamento se mostre eficaz, as mudanças causadas pela doença são difíceis de serem revertidas, pois a diminuição da proteína não recupera os neurônios que já foram perdidos.

Pesquisas anteriores utilizando a mesma tecnologia em roedores e primatas mostraram resultados promissores; no entanto, ainda há incertezas quanto aos efeitos em humanos. Conforme informações da Alnylam Pharmaceuticals, ensaios clínicos de Fase 1 envolvendo cerca de 50 indivíduos com Alzheimer inicial mostraram uma redução de 70% nos níveis da proteína-alvo, mas esses dados ainda não foram publicados em revistas científicas.

* Quais são os possíveis efeitos colaterais para Lito?

A experiência com essa molécula em pacientes com Alzheimer precoce e doença de Huntington sugere principalmente efeitos adversos relacionados à aplicação via punção lombar, tais como dor nas costas e cefaleia. Um caso fatal relacionado à pancreatite aguda ocorreu 277 dias após uma aplicação em um dos estudos; no entanto, esse evento foi considerado irrelevante ao medicamento.

Dado que ALN-6457 ainda não foi administrado a humanos com doenças priônicas, existe um nível significativo de imprevisibilidade sobre seus potenciais efeitos colaterais.

* Quantas vezes Lito receberá o tratamento?

Inicialmente, prevê-se que Lito receba apenas uma aplicação no líquido cefalorraquidiano, com efeito esperado por cerca de seis meses. Dependendo dos resultados, pode haver necessidade de novas aplicações a cada seis ou 12 meses. Também é possível que sejam realizadas punções lombares adicionais para monitorar os efeitos do medicamento.

* O composto já foi testado anteriormente?

A ALN-6457 passou por testes em células humanas e animais; no entanto, os resultados dos estudos pré-clínicos ainda aguardam divulgação. “Lito será o primeiro ser humano a receber ALN-6457”, afirma Raskin.

* Existem medicamentos semelhantes disponíveis?

Segundo Raskin, já existem tratamentos utilizando tecnologias análogas, como nusinersena (Spinraza), disponibilizado pelo SUS desde 2019 para tratar atrofia muscular espinhal e tofersena (Qalsody), aprovado pela FDA em 2023 para casos específicos de esclerose lateral amiotrófica.

A plataforma siRNA também é utilizada em medicamentos já aprovados como patisirana (Onpattro), destinado ao tratamento de um tipo específico de amiloidose.

* Por que essas drogas não foram testadas para doenças priônicas?

A principal barreira está na dificuldade de fazer com que o fármaco chegue ao cérebro. A barreira hematoencefálica protege esse órgão contra substâncias potencialmente prejudiciais, complicando assim o desenvolvimento de medicamentos capazes de alcançar e se distribuir adequadamente nas diferentes áreas cerebrais.

* A molécula demora para ter efeito?

A distribuição inicial normalmente ocorre algumas horas após a aplicação. Após isso, as moléculas permanecem nos endossomos—compartimentos celulares responsáveis por organizar e transportar substâncias—formando um reservatório que libera gradualmente o medicamento.

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Canoas Informa

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